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Jul22

Maria do Rosário Pedreira

O facto foi mencionado ontem no jornal Público, a propósito da Bienal do Livro de São Paulo: um coletivo de 169 intelectuais portugueses, brasileiros, moçambicanos e angolanos escolheu os 200 livros mais importantes da literatura brasileira – aqueles que, em 200 anos de independência, melhor ajudam a compreender o país. E... Que maravilha um romance cujo sucesso começou em Portugal com a atribuição do Prémio LeYa (e viu esse sucesso reproduzido no Brasil com os prémios Jabuti e Oceanos) estar agora entre os primeiros 50 títulos mais importantes (!) da literatura brasileira! Mas não é de estranhar: Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, fez o milagre de trazer para a leitura muitas pessoas que provavelmente achavam (melhor, sentiam) que a maioria da ficção publicada no Brasil já há muito que nada tinha que ver com elas. Ele cativou um público novo que se identifica com as situações descritas no seu romance e com o autor, criado longe dos grandes centros; ele pôs o dedo na ferida e mostrou um Brasil que, apesar de mais de um século passado da abolição, continua a ter uma larga franja da população escravizada. Com o seu estilo poético e maravilhoso e a sua voz de conhecedor dos factos (um homem no terreno), ele homenageou os escritores clássicos e, seguindo-lhes as pisadas, acabou evidentemente a fazer-lhes companhia na lista. Uma alegria enorme saber que tudo começou neste cantinho do mundo e, porque não dizê-lo?, passou aqui pela minha secretária. Parabéns, querido Itamar Vieira Junior.