Imagem: Allan Warren Baldwin retrata o nascimento de uma força que não deveria se fazer necessária, mas que é impiedosamente exigida e brutalmente arrancada – diariamente. Essa força cresce, se perpetua e cria raízes. A Rua Beale fala e vive. Laura Pilan Se a Rua Beale falasse, acredito que usaria as mesmas palavras de James Baldwin para contar a tocante história de Tish e Fonny. Cerca de mil quilômetros separam a Rua Beale no Mississipi – que dá título ao romance – e o Harlem em Nova Iorque, onde a narrativa realmente se passa. Contudo, a importância do local é histórica, uma vez que serviu de palco para o desenvolvimento de diversas expressões artísticas – como o blues e o jazz de Muddy Waters, Louis Armstrong e B.B. King. Além disso, foi o cenário escolhido para a idealização de estratégias e protestos durante a época do Movimento dos Direitos Civis. Certa vez, Baldwin declarou que o seu livro se dedica a dar expressão ao legado criado na Rua Beale e em outros bairros que floresceram a partir da cultura afro-americana. Não é um exagero afirmar que o autor cumpriu seu objetivo. A trajetória de Tish e Fonny equilibra a dor pungente e a esperança inabalável – e, por isso mesmo, é extremamente potente. Baldwin é implacável em sua sinceridade e agudeza, de modo que sua ficção é cruelmente próxima da realidade. Em um primeiro momento, descobre-se que o casal está separado por uma injustiça: ele é acusado do estupro de uma mulher branca. Através dos olhos de Tish, o leitor sabe que Fonny é inocente. A angústia arranha as páginas do livro, tornando-o irremediavelmente claustrofóbico diante da incerteza da liberdade do homem. O sentimento de impotência é arrasador, mas não destrói a fé ou suspende os esforços da família de Tish. Os laços familiares de Fonny parecem nublados até que os nós começam a ser desatados. As circunstâncias são mais complexas do que o esperado: a mãe e as irmãs do rapaz fazem um péssimo juízo de seu caráter, baseadas unicamente no tom de sua pele. Assim, o pai, a mãe e a irmã de Tish configuram o único apoio que Fonny possui do lado de fora da prisão. Por meio dessa dinâmica, Baldwin revela os comportamentos e distinções que existem dentro da própria comunidade negra nos Estados Unidos. A prisão de Fonny se mostra uma represália orquestrada por um policial branco. A gravidez de Tish e o alto custo do advogado são alguns dos infortúnios que são somados ao quadro de desespero pintado pelo romance. Mas também há a ternura, que reside nas memórias cômicas do primeiro encontro entre duas crianças desajeitadas e nas lembranças do amor partilhado no apartamento recém-comprado. Baldwin retrata o nascimento de uma força que não deveria se fazer necessária, mas que é impiedosamente exigida e brutalmente arrancada – diariamente. Essa força cresce, se perpetua e cria raízes. A Rua Beale fala e vive. A sua voz ecoa na determinação de Tish, na resistência de Fonny, no ímpeto de Ernestine, na coragem de Sharon, e, em última instância, na obra de James Baldwin.