Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

A última vez que estive em Brasília, tomava um café na Mega Store Saraiva, no Shopping Iguatemi, quando avistei um senhor bastante distinto lendo um livro cujas letras eram azuis (na verdade, vejam na capa por vocês mesmos, pois sou daltônico e diferenciar azul de roxo, violeta ou lilás não é o meu forte). Fui pagar a conta bemmmmm devagar para tentar fisgar o nome do livro. “Como funciona a ficção”. Estava fisgado o peixe. Se há uma leitura que me dá tanto prazer quanto a literatura em si é ler SOBRE literatura. Gosto de ler sobre a interpretação de obras, técnicas de criação e narração, estilos literários. Como e por que ler?, de Harold Bloom, e Oficina de Escritores, de Stephen Kosh, são livros que me ensinaram muito não como escrever, mas como ler, e com este livro que acabei ontem à noite não foi diferente.

Fui atrás do livro lá na Saraiva e acabei localizando-o.  Para meu deleite, foi publicado pela Cosac Naify (o que pesou na balança na hora de me decidir pela compra). Fui olhar alguma coisa sobre o autor e vi que ele escreveu para o The Guardian, é crítico da afamada revista The New Yorker e ensina crítica literária em Harvard. Currículo ele tem, pensei, e acabei comprando o livro.

Para quem se interessa por literatura, o livro é obrigatório. Muito bem escrito, num ritmo leve, sem enrolar, sem formalismo, mas com bastante conteúdo. O autor demonstra um conhecimento absurdo acerca da literatura, e desfilam ao longo do livro diversas obras, de Faulkner a McCarthy, passando por Austen, Pynchon, Hemingway, Greene, Mann, Joyce, Dostoiévski, Tolstoi, Nabokov, Shakespeare e muitos, muitos outros, culminando com uma reverência a Flaubert (o romance moderno nasceu com ele, afirma, em certo ponto, o autor).

A partir da análise da técnica do estilo indireto livro, James Wood analisa o dilema do pensamento do autor versus pensamento do narrador, reflete sobre as metáforas, estilo, diálogos e muitos pontos que me fizeram repensar o ofício do escritor e a própria leitura.

Logo no início do livro, o autor é enfático a respeito das maneiras como se pode escrever um livro:

“A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas.”

Em um determinado ponto, ele diz que

“os jovens ainda não leram literatura suficiente para aprender com ela de que modo lê-la.”

Concordo plenamente com essa ideia, me incluindo aí, obviamente, na categoria dos jovens.

Mas o que de mais “ousado” ele afirma é quanto ao uso das metáforas:

“Num certo aspecto, a prosa complexa é muito simples, devido ao caráter matematicamente definitivo segundo o qual uma frase perfeita não pode admitir um número infinito de variações; não se pode aumentá-la sem algum prejuízo estético: sua perfeição é a solução de seu próprio quebra-cabeça; não havia como fazê-la melhor.”

Uma das metáforas perfeitas, que não havia como dizer melhor, para o autor, é uma de Tolstoi, que disse que os bracinhos dos bebês são tão rechonchudos que parecem amarrados com linha. Simples e perfeito.

Fica o convite: Há frases de seus escritores favoritos que quando vocês acabaram de ler ficaram com o efeito “uau!, caramba!”, ou “Como eu gostaria de ter escrito isso!”?

Aguardo comentários.