Bruno Pernambuco

gramática

[Do lat. grammatica< gr. grammatiké, ‘arte de ler e de escrever’, f. subst. de grammatikós]

Substantivo feminino

A arte de falar e de escrever bem em uma língua

Em Estudos Lingústicos: Estudo ou tratado que expõe as regras da língua-padrão

Obra em que se expõem essas regras

Exemplar de uma dessas obras

E. Ling. Estudo da morfologia e da sintaxe de uma língua

E. Ling. Conhecimento internalizado dos princípios e regras de uma língua particular

E. Ling. Estudo sistemático desse conhecimento

E. Ling. Estudo dos morfemas gramaticais de uma língua, como artigos, preposições, conjunções, desinências.

Bras. PE Pop. V. cachaça

Bras. PE Pop. Qualquer bebida alcoólica

Em 1536 o português começa a se envergonhar. Com a escrita da gramática do frade Fernão de Oliveira, a língua que já havia descoberto praias longínquas na América descobre a sua própria nudez. A censura divina lhe dá um trapo que mal serve para cobrir as vergonhas. A partir da expulsão a língua se regula, se envergonha, estabelecendo para si suas próprias necessidades se inventa em uma coisa outra. As incertezas se fecham numa dor parca.

As definições vivas tornam-se estanques. Agora há uma bandeira para definir, quando o país que existia dentro de cada português, inventado por cada um que falava, é finalmente unificado. A gramática é um avesso de regras. É uma definição que não significa nada.

É um conjunto de significados cujo único significado é a necessidade de outras definições: ela não é nada sem a Morfologia e a Sintaxe, que não são nada sem a Escrita, e depois a Palavra,  que não é nada sem o Espaço, que não tem sentido sem a Letra, que inexiste sem a Vírgula- como não se pode chegar a um acordo sobre essa última, invalida-se todo o compêndio gramatical.

Uma Gramática, não uma Bíblia, seria um conto de Borges completo, da forma que devia ser. Uma obra finita para regular algo que é infinito incorre necessariamente em certas “Gramática é a arte de se expressar de acordo com a gramática”, se deduz da definição verbetial do dicionário. Muito mais se pode definir a partir daí. “Gramática é um estudo sistemático da gramática”.

“Gramática é uma definição do que é gramática”. “Gramática é uma conversa com a gramática, de onde se criam fonemas, frases, relações sintáticas, interdependências dos termos, e assim por diante”. Cada definição inventa novos nadas- um nada novo, mais delimitado, mais precisamente definido, melhor circundando o significado. Uma obra que obedeça à gramática não passa de um infinitésimo. Gramática é coisa que anda simultaneamente por todo lugar, que a um só tempo define todos os objetos. Durante os sonhos é um pouco mais fácil escapar-lhe.

Mas acordar é entrar no seu território. Nas primeiras horas de um dia gramatical, anunciado meio a dicionário meio a calendário, um sol linguístico, entrando pela fresta da janela, faz visível a cama gramática. Sobre uma mesa contida inteiramente pela sintaxe, há um copo gramatical, com um pouco de gramática morna que sobrou da noite passada. Gramática é uma palavra que está em todo lugar. Só alguns poucos conseguiram sair do seu domínio. 

Mesmo à melhor gramática custaria uma vida inteira para entender um Grande Sertão: Veredas. Em correspondência de 1927 com Carlos Drummond de Andrade, Ribeiro Couto proclamou:  “Abaixo o adjetivo. No fundo, o substantivo é que tem vida própria, o adjetivo é um excitante, um remédio, um acelerador- às vezes, falseando- das qualidades motoras, expressivas, do substantivo”.  Acertou na descrição mais precisa possível das funções gramaticais: é necessária uma classificação para as palavras que têm sentido, outra para as palavras encilares que servem para nega-lo, cada uma a sua forma, e então outras que contemporizem cada uma das negações, e assim por diante formando a estrutura de uma sentença que seja aprovada pelo errático crivo.

A sintaxe é um processo de negações. É uma tentativa de inventar nada. Cada vez mais se distanciar da realidade através de cada qualificativo é uma tentativa de alcançar o absoluto. A gramática é o antônimo de todas as funções estabelecidas para uma linguagem. A língua é um acordo de não entendimentos.

Cada substantivo tem muitos outros nomes por trás de si. “Casa” é a sentença incompleta de um inexpressável próprio a cada falante. Não existe sentido para “Estátua”, nem para “Pedra”, nem para “Cavalo” a não ser no encontro das inexpressões, naquilo que é somente a memória que diz e, no ouvinte, ela mesma completa, num novo objeto diferente do que se presumia imaginado.  A gramática não tem tempo, não tem pontos de vista, nem alterações da realidade.

É incompleta, humana e gramaticalmente incompleta. É aberta e ao mesmo tempo contida. Vazia e ao mesmo tempo nada dentro dela cabe. Nada existe de impressionante na língua, exceto sua dificuldade em ter definições simples contradições.