Ilustração de Ligia Zilbersztejn

E por que a nossa eterna necessidade de rótulos e adequações? Porque precisamos ter uma sociedade normal. Normal para quem, cara pálida?

Maria Paula Curto*

Jurei que não iria entrar em debate político nas redes sociais. Sinceramente, não vale a pena. Vivemos uma sociedade cindida e há coisas que escapam à racionalidade e se apresentam muito mais como dogmas a serem seguidos por uma fé “cega, faca amolada”, que corta qualquer argumento minimamente lógico. E quando algo escapa à razão, a melhor resposta parece ser o silêncio. E o tempo. Tempo para que alguns acordem desse pesadelo de poder e autoridade, revestido de “mito salvador da pátria”…afff

Porém, minha curiosidade extrema não me permite uma ausência total das redes e, volta e meia, lá vou eu xeretar o que andam postando por aí. Entre absurdos cômicos – ou seriam trágicos? – encontrei um post não político (se é que existe alguma coisa não política nessa vida…), que mostrava um desenho de uma raposa que dizia que, apesar de ter nascido raposa, agora sentia-se como galinha e, como tal, deveria ser levada ao galinheiro. E na sequência havia algum comentário sobre a questão do transgênero. Fiquei um tempo mastigando aquela informação, tentando entender a moral por trás da história. Será que havia uma possível analogia? Não, claro que não. Deve ter sido mera coincidência… Ou será que alguém em sã consciência acha que uma pessoa trans pode usar sua “nova identidade” em proveito próprio? Como um disfarce para facilitar a caça e devorar sua presa? Ou será que alguém ainda acha que ser trans é uma questão de escolha? Não, não creio que isso seja possível. Estou longe de ser uma especialista no assunto da transgeneridade, mas posso tentar imaginar – e acolher – o sofrimento de quem não se sente parte do seu próprio corpo, da sua própria pele.

“Posso tentar imaginar – e acolher – o sofrimento de quem não se sente parte do seu próprio corpo, da sua própria pele”. Figura: @herta.burbe/reprodução.

Lembro-me de uma coisa relativamente boba que me aconteceu um dia, lá pelo início dos anos 90, quando eu ainda morava e trabalhava no RJ. Um dia, quando eu voltava de metrô do trabalho para casa, meu sapato estava me incomodando tanto, mas tanto, que meu calcanhar era uma bola de fogo vermelha, totalmente em carne viva. Apesar da hora do rush e de ter uma multidão de engravatados olhando para mim, não pensei duas vezes: tirei o tal sapato assassino do pé (que alívio, meu Deus!) e resolvi encarar os quatro quarteirões que ainda faltavam para eu chegar em casa, totalmente descalça. Virei a atração do momento: vestida com um tailleur de linho cinza, bolsa Victor Hugo (era moda e eu tinha adquirido aquele exemplar numa super liquidação. Nunca tive dinheiro para o preço normal…) e com o par de sapatos na mão! Não havia quem passasse na rua São Clemente e não olhasse para mim. Resolvi encarar a humilhação, pois ser tachada de louca ou mendiga era nada perto do alívio que senti ao liberar meu pé daquele objeto de tortura!

Felizmente, eu pude tirar de mim o que me causava dor: os meus sapatos. Mas quando essa dor vem do corpo inteiro, como faz? Arranca o corpo fora? Vira do avesso? Ou convive com a dor da inadequação extrema até a gente apodrecer por dentro e o sangue escorrer pelas panturrilhas, formando poças de vidas que poderiam ter sido, mas, infelizmente, não foram? 

Somente porque eu estava descalça, e esse comportamento não era adequado ao momento nem à situação, eu virei objeto de chacota e de olhares de censura dos mais diversos. Censura pela simples ausência dos sapatos… imagine quando essa “anormalidade” diz respeito ao corpo, ao corpo esperado, adequado ao gênero do nascimento ou ao nosso modelo de homem ou mulher ideal? Quantos olhares de reprovação serão necessários suportar? Quantas piadas terão que ser ouvidas? Quanto asco vamos causar? Será que alguém se sujeitaria a isso apenas por um capricho ou para levar vantagem? Por uma “simples escolha”?

Laerte, em 2016, “às vezes um cara tem que se montar, ué.”/ Charge: reprodução/ Laerte.

E por que a nossa eterna necessidade de rótulos e adequações? Porque precisamos ter uma sociedade normal. Normal para quem, cara pálida? Quem determina o que é normal? O seu normal será igual ao meu normal? O normal de hoje é o mesmo de ontem? E será o mesmo amanhã? Por que não podemos apenas aceitar e respeitar o diferente? Inclusive, eu poderia dizer que, na genética, a diversidade é benéfica, ela fortalece a espécie. Misturar é bom. Ter outras perspectivas é melhor ainda. Amplia os horizontes. Por que menino tem que vestir azul e menina tem que usar rosa, se temos todo o arco-íris à nossa disposição? Ok, eu jurei que não ia falar de política…

E já que o tema é inadequação ou “anormalidade”, lembrei também de um outro evento – sim, hoje estou nostálgica –, que aconteceu comigo quando eu era pequena. Eu deveria ter uns 11 anos, acho. Lá se vão mais de 40 anos… Minha tia tinha aberto um restaurante de comida baiana na galeria Alaska, no RJ. Para quem não é carioca, a galeria Alaska era um centro de cultura gay e travesti na Cidade Maravilhosa. Antes que alguém me chame de burra ou ignorante por não saber a diferença entre trans e travesti, em minha defesa, devo dizer que o termo transgênero ainda não fazia parte do nosso vocabulário nessa época, final dos anos 70. Nesses tempos, todos que “transgrediam as regras de gênero” eram chamados de travesti. (Aliás, tem um filme da Leandra Leal que fala sobre o universo dos primeiros travestis famosos do Brasil de uma forma elegante e delicada, chamado Divinas Divas. Recomendo. Vale muito a pena)

Da esq. para dir.:  Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios, Elenco do filme Divinas Divas. Foto: divulgação/Senac.

Uma noite, estava eu lá no restaurante com a minha mãe, quando uma senhora muito distinta, vestida com uma saia lápis midi preta e uma blusa de seda nude (na época, a gente dizia bege mesmo), com um cabelo ruivo escuro, preso em um coque muito bem penteado no alto da cabeça, chegou para comprar vatapá e acarajé. Minha mãe, sempre falante e simpática, engatou uma longa conversa com aquela senhora, me apresentou, ela sorriu, me abraçou e ao final de uma meia hora de papo animado, ela entrega para minha mãe convites para assistirmos ao seu show no teatro da galeria Alaska. Claro que fomos conferir. Foi lindo. Lembro até hoje das vozes que imitavam Liza Minnelli e Barbra Streisand, as divas da época, das cores e das plumas dos boás, dos brilhos das lantejoulas. Uma noite super agradável e divertida (e antes que você se pergunte como uma criança de 11 anos entrou num show noturno, eu te respondo que eu já media uns 1,65 cm e pesava uns 60 quilos. Passava fácil por 16 anos. E ainda fui com minha mãe, que foi recebida pela hostess com a maior atenção e gentileza!). No intervalo do show, lembro de perguntar baixinho à minha mãe: “mas essa mulher, na verdade, é um homem, né mãe?” Ao que minha mãe respondeu: “ela é uma artista, minha filha, uma grande artista!”

Que saudade da dona Lucinda..

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.

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