Por José Eduardo Ribeiro Nascimento
É interessante como alguns filmes nos marcam distintamente, de modo que se tornam para nós referências para comparar ou avaliar outros filmes. Quando assisti a Casablanca pela primeira vez não sei bem o que senti, mas fiquei impressionado. Este filme é um dos mais queridos dos Estados Unidos, e não é difícil entender por quê.
Casablanca se passa nos idos de 1941, em plena 2ª guerra. A Europa está condenada, os Nazistas reinam intocáveis e no meio deste cenário caótico surge Victor Laszlo, um líder da resistência Tcheca, que tenta fugir para os EUA para lá continuar seus trabalhos. Casablanca, cidade ao norte do Marrocos, é um entreposto para quem quer fugir, por ser em solo livre Francês a Gestapo não é tão influente. E é aqui que começa o charme do filme. Laszlo é um personagem muito interessante, um cara perfeito: luta por grandes ideais coletivos, odeia os nazistas e sempre age de maneira a encará-los, não perde a cabeça quando descobre que sua esposa o traiu, mas a perdoa sem vacilar. É o típico herói americano: Alto, um magro atlético, nem feio nem bonito. Para os americanos, numa época em que todo mundo temia e odiava os nazistas, ver alguém que os combatia sem temer as conseqüências foi um golpe de mestre dos roteiristas.
Para fugir da Europa com sua esposa Ilsa, Victor vê sua única esperança em Rick Blaine, um cínico e amargo americano que não arrisca o pescoço por ninguém. Outrora Rick teve um caso com Ilsa que durou alguns dias e acabou em tristeza e decepção. Desde então ele se tornou um personagem que todos gostamos em filmes: Um cara solitário, amargo, com respostas inteligentes e perspicazes, o anti-herói. Rick não confia em ninguém, talvez apenas em seu pianista, Sam, que está com ele desde que o filme pôde lembrar. Nas mãos deste homem miserável é que está toda a chave para o desenrolar da história. Ou para o bem ou para o mal, suas decisões influenciarão a todos.
A própria Ilsa é uma personagem muito interessante. Apesar de ser apaixonada por Rick, ela mostrou ser uma mulher forte, tentando ao máximo tomar as decisões mais difíceis de uma forma justa e comedida. Uma pessoa presa ao passado, mas tentando viver um futuro.
Eu particularmente gostei muito do Capitão Renault, o chefe de polícia francês. Ele é responsável por alguns dos melhores diálogos, muitas vezes com Rick, como esse abaixo:
– Este é o fim da perseguição – Renault referindo-se a Laszlo.
– Vinte mil francos dizem que não.
– Isso é uma oferta séria?
– Eu perdi vinte. Gostaria de recuperá-los – Rick com um pequeno sorriso no rosto.
– Fiquemos em dez. Sou apenas um pobre funcionário corrupto.
Renault mostra muito da vida em Casablanca, a corrupção, a esperteza que se desenvolve numa terra cheia de desesperados. Sua figura foi indispensável para o bem fluir da história, muitos de seus diálogos vieram em horas bem-vindas, pois sempre foram carregados de ironias e piadinhas. Falso, sínico e bajulador, Renault foi uma ótima criação e muito bem encarnado pelo ator. Esses quatro formam o círculo central da história, dois ótimos protagonistas (Rick e Ilsa) e dois grandes coadjuvantes (Renault – indicado ao Oscar, e Victor Laszlo).
Com personagens interessantes e uma trama simples, mas muito bem contada, Casablanca fez um sucesso que a crítica não esperava na época. O filme foi realmente muito bem feito, em todos os mínimos detalhes. A fotografia é muito boa, e dá pra perceber os recursos que se usavam quando não se fazia cinema em cores. O contraste entre as cenas dá um charme especial. O brilho foi muito usado em cenas com a atriz Ingrid Bergman (Ilsa): seus brincos lágrimas, cabelos e até a pele, irradiavam uma luz forte dependendo da cena. Essa “maquiagem” que os editores deram dá muito mais emoção quando se assiste aos filmes.
Outro ponto é o dos cenários. Os produtores do filme não dispunham de grandes recursos, os próprios atores estavam mais preocupados em acabar logo de filmá-lo para fazer outros trabalhos. O filme passa-se, em pelo menos 60% do tempo, no bar de Rick. E se formos calcular os cenários diferentes, a conta não ultrapassaria o primeiro dígito. Essa foi uma das coisas que mais me chamou a atenção. O filme, totalmente baseado em diálogos interessantes, nunca se deu ao luxo de tornar-se monótono. Os diálogos foram muito bem escritos, de uma forma que os inteligentes falavam bem, e os “menos espertos” soltavam frases comuns e sem efeito. Muitos filmes pecam no sentido de achar que todos têm uma esperteza sobrenatural, tornando-se muito superficiais. Existem autores que colocam vendedores de rua que dão lições filosóficas sobre a vida. Em Casablanca é cada um no seu lugar.
Foi criado um grande menu de frases de efeito. Há diálogos que ficam na memória, como o que Rick teve com um vigarista:
– Você me despreza não é Rick?
– Se ao menos pensasse em você talvez o desprezasse.
Outras como: “Ainda teremos Paris.” (referindo-se ao momento em que tudo estiver acabado), e “estou de olho em você, menina”, viraram jargões e são imitadas até hoje.
Outro fator importante em um filme é a música. Existem temas que ainda estaremos a cantarolar vários dias depois do filme, e Casablanca tem o seu. A música “As time goes bye” de Herman Hupfeld, foi tocada e cantada por Sam, o pianista, em vários momentos do filme, e simboliza o amor de Rick e Ilsa. É uma música belíssima que passa realmente a frustração, a tristeza e, ao mesmo tempo, o sentimento que une o casal.
O filme não é sobre o nazismo, é sobre um amor que não pode ser realizado. Mas mesmo assim aquele está presente de uma forma marcante. O Major alemão, da Gestapo, está sempre procurando uma forma de pegar Laszlo, e também não é amigável com Rick. E, como não podia ser diferente, os alemães se dão muito mal no decorrer do enredo. Há, por exemplo, um momento em que os alemães estão cantando uma música do 3º Reich. Laszlo chega e começa a cantar o hino francês, a Marselhesa, que é símbolo da revolução, e todos seguem Victor e os alemães param de cantar humilhados. Além disso, no final do filme o Major da Gestapo não se dá muito bem.
Esses detalhes, como o dos franceses e americanos ganhando dos alemães, mostram o quanto o filme “veio bem a calhar” naquela época. O roteiro foi escrito para ser um romance comum, mas ao mostrar como era a vida em Casablanca, o diretor do filme – Michael Curtiz – deixou alguns personagens com características fortes. Por exemplo, em contraparte ao Capitão Renault que era um francês corrupto, os soldados e cidadãos franceses foram caracterizados pelo amor a pátria e pela não submissão ao poder nazista da cidade. Assim, com essas pequenas “jogadas”, o filme foi conquistando cada vez mais simpatizantes.
Com certeza o objetivo dos criadores do filme foi o de fazer um filme para americanos. Mas acabaram por criar um dos maiores filmes da história. Por todos esses fatores Casablanca é um filme indispensável, um romance, um drama, um filme que retrata uma época. Indispensável para os apaixonados por filmes, e até para aqueles que só buscam algumas horas de diversão, Casablanca se mostra sempre atual, mostrando que o que é bom sempre o será, mesmo com o passar do tempo…
