1765) Machado: “Idéias de Canário” (5.11.2008)
Literatura brasileira, Machado de Assis, Filosofia, Contos, Fenomenologia
(Machado, por Stegun) Este sempre foi um dos meus contos preferidos de Machado (em “Páginas Recolhidas”, 1899). Curtinho, semi-fantástico, filosófico, bem-humorado, é um apólogo com múltiplas leituras, que nunca se esgotam. O narrador é Macedo, mais um dos gênios incompreendidos machadianos, um sujeito voltado para a investigação de assuntos abstrusos a fim de comunicar suas descobertas ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico ou a universidades alemãs. Ocorre-lhe entrar um dia numa loja de belchior, atulhada de objetos imprestáveis, e descobrir ali uma gaiola onde saltita um canário falante. A uma pergunta sua, o canário diz não saber o que é o céu, ou o sol, e assim define o seu mundo: “O mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira”. Macedo se deslumbra, compra a ave e a leva para casa, onde lhe destina uma paisagem mais arejada, e gaiola mais hospitaleira. Passa a tomar notas copiosas: “Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabetizar a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc.” A certa altura da pesquisa, Macedo volta a indagar do canário sua definição do mundo, para passá-la a limpo, e se surpreende. “O mundo,” responde-lhe o pássaro, “é um jardim assaz largo com um repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira”. Macedo adoece, e ao melhorar fica sabendo que o canário fugiu durante a limpeza da gaiola. Deixa-se abater pelo desespero, procura em vão, nenhum sinal da ave. Passa-se algum tempo. Um dia, visitando a chácara de um amigo, ouve o canário cumprimentando-o do galho de uma árvore. Implora-lhe que volte; não estará com saudade do jardim, do repuxo?... O canário afirma nunca ter visto semelhante paisagem, e, indagado sobre o que é o mundo, responde com firmeza: “O mundo é um espaço infinito e azul, com o sol por cima”. É uma recriação da parábola dos três brâmanes cegos, que apalpam um elefante e o descrevem pelas partes que lhes tocam. Do canário de Machado pode-se dizer que evolui, mesmo que sua visão-do-mundo seja fenomenológica, capaz de conceber apenas o que percebe a cada momento. É uma pequena sátira intelectual, com ironia, mas uma ironia simpática, pois o próprio Macedo não sabe se seu mundo é mais ou menos veraz que o do canário.
Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo