Ilustração de Ligia Zilbersztejn

No famigerado “país do futuro”, havia duas mulheres vivendo mundos completamente diferentes. Não por vontade, escolha ou capacidade. Destino? Talvez

Maria Paula Curto*

Era um dia chuvoso como o de hoje. Eu estava sentada na mesa da sala de jantar, improvisada como escritório, cercada de livros de filosofia por todos os lados. Precisava concluir um trabalho do meu querido estagirita, precursor da taxonomia, vulgarmente conhecido como Aristóteles e não sabia por onde começar. A Metafísica ali, me olhando, com cara de: nem vem que eu vou te devorar de palitinho, igual petisco. Fato. Aquela versão bilingue, então, era ainda mais assustadora. Um bando de letra grega me lembrava o monte de derivadas que eu tinha que resolver nas aulas de cálculo da faculdade. Dura lembrança.

Ao meu lado, estava ela, a minha faxineira – nessa época, ela vinha duas vezes por semana e aquele era o dia dela – de vassoura e balde na mão, caprichando na limpeza da sala. Olhava para aquela mesa toda bagunçada e para mim, (completamente descabelada, fazendo mil anotações e pensando alto – ainda bem que a internação de loucos não estava em moda nessa época) com uma cara de ponto de interrogação.

— Tudo bem, Marinez? Estou bem bagunçada hoje, né? (Como se isso não fosse o meu dia a dia)

— Tudo. Não é bagunça não. É legal a mesa assim cheia de livro bonito.

— Livro bonito?

— É, livro é bonito… Sabe, eu não tenho inveja de nada nesse mundo. Nem de quem tem dinheiro, nem de quem tem casa bonita, nem carrão. A única coisa que eu tenho inveja é de estudo. Acho lindo quem tem estudo. Eu não tive estudo não. Fui novinha pra roça. Meu pai chamou os filhos tudo pra ir ajudar com o milho e a mandioca. Era trabalho muito pra ele sozinho, sabe?

— Imagino.

— Só deu pra aprender umas letras e fazer conta. Ajuda no mercado. Ninguém me enrola não.

— Não enrola mesmo. Você é muito esperta.

— Sou nada. Sou burra. Isso sim. Nem meu nome eu sei escrever. Só sei trabalhar. Tenho medo de pegar no pesado não. Trabalho com gosto… Mas não vou mais atrapaiar a senhora não. Continua aí dona Paula que eu tenho muito serviço pra fazer.

Da esq. para a dir.: Nietzsche, Marinez e Platão. Foto: Acervo da autora.

Naquele mesmo instante, na sala de um apartamento no Brooklin (SP, antes que alguém imagine NYC…), no famigerado “país do futuro” (futuro esse que nunca chega!), havia duas mulheres vivendo mundos completamente diferentes. Não por vontade, escolha ou capacidade. Destino? Talvez. Ou por simples falta de oportunidade.

Levantei daquela mesa decidida. Posso não mudar o mundo, mas algo dá para fazer. Comprei lápis, borracha, caderno e fiquei horas numa livraria ao lado da PUC, procurando um livro de alfabetização de adultos. Não dava para ensinar aquela mulher vivida e que foi capaz de enfrentar São Paulo completamente cega – ou você acha que, sem leitura, alguém consegue enxergar direito esse mundo? – com a cartilha do “vovô viu a uva”, né? Depois de fuçar umas vinte e cinco prateleiras: Achei! Salve Paulo Freire! Um livro colorido, mas sem bola nem boneca – afinal, esses nunca foram os brinquedos dela e nem de muita gente neste Brasil varonil – mas com enxada, ponto de ônibus, barraca de feira… Símbolos da vida comum. Transformados em letras, sílabas e palavras. Pronto! Era um começo possível.

No outro dia da faxina, mostrei para ela as minhas compras e contei sobre meu plano. Incluir mais um dia na semana (e eu pagaria por isso, claro) e a gente ia estudar às tardes. Três vezes por semana. Ela nem respondeu. Pegou o livro, o caderno, o lápis e sorriu.

Naquela tarde começamos. Ela me olhou envergonhada com o lápis na mão e disse: 

— Eu esqueci como segura o lápis. Tá escorregando.

— É assim ó. É fácil, já já você acostuma.

— Eita, acho que não nasci pra essas coisas de estudo não.

— Nasceu sim. Confia.

— E se eu não conseguir?

— Vamos tentar? Você não é mulher de desistir logo de cara, é? Quem foi que criou filho sozinha aqui? Levava na escola, no médico, dava os remédios certinhos…

— Verdade, dava mesmo. E todas as vacinas!

E tem gente pós-graduada que ainda pensa que a terra é plana… Viva a Marinez!

Os primeiros dias foram difíceis, mas animadores. Ela rapidamente pegou o jeito com o lápis – muito mais rápido do que eu com compasso e transferidor, por exemplo, nas minhas fatídicas aulas de Desenho Técnico, na faculdade. Misericórdia aqueles meus desenhos, como diria minha filha – e a letra, um pouco tremida e oscilando, às vezes morro acima, outras, morro abaixo, como nas curvas da estrada de Santos, começou a ganhar contornos mais definidos e a segurança de quem aprendeu o caminho. 

Tido com umas das referências na pedagogia, Paulo Freire, completaria 100 anos em setembro passado. Seu legado, contudo, mantém-se vivíssimo.Foto: Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire – RJ

— Tá bonita agora, não tá dona Paula?

— Tá linda.

— Eita que nem eu acredito que dava pra eu escrever desse jeito. Uma belezinha mesmo.

A vontade de aprender era tanta, mas tanta, que a baixa autoestima foi rapidamente superada. Ela vibrava ao ver o seu mundo se transformando em letras e cabendo inteiro naquele pequeno caderno de capa azul. 

Um dia, ela chegou em casa toda animada, nem falou bom-dia e veio correndo me contar a grande novidade.

— Dona Paula, dona Paula!!!

— O que é Marinez, está tudo bem?

— Eu descobri, eu descobri!!!

— O que você descobriu mulher de Deus?

— Eu descobri porque esse desinfetante aqui ó é tão cheiroso. (Ela foi até o armário da despensa e pegou a embalagem do desinfetante) Está escrito aqui ó. Bem aqui. ERVA-DOCE.

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.