OUTRA RESENHA SOBRE O MESMO LIVRO:
https://armonte.wordpress.com/2011/09/11/o-outono-do-imperio-americano-segundo-paul-auster/
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de agosto de 1993)
Em LEVIATÃ (Leviathan, 1992, em tradução de Thelma Médice Nóbrega), Paul Auster consegue a façanha de realizar uma obra tão (ou até mais) sombria e abrangente quanto A música do acaso (1990), seu romance anterior. A aparentemente singela narrativa em primeira pessoa esconde um labirinto de contrapontos e paralelismos: em certo momento, o leitor começa a se perguntar por que Peter Aaron (o narrador, P.A.) afirmou que contaria a história de seu amigo Ben Sachs, cuja morte inicia o relato, se até metade predomina a sua própria trajetória. É que esta, se não justifica, ao menos ilumina a trajetória de Sachs, o qual termina a vida explodindo réplicas da estátua da liberdade pela América afora.
Fazendo com que um personagem que abraçou a existência comum e os compromissos sociais comente a vida de um outsider, a técnica de Auster se mostra brilhante: primeiro nos envolve nos debates íntimos de Aaron, tentando “se acertar na vida”, firmar-se na profissão, constituir uma família, juntar algum dinheiro, em meio à perplexidade e frustrações. Os anos vão passando, e os destinos supostamente se moldando (ou amoldando); de repente, numa transição tipicamente austeriana, o acaso intervém e Sachs e a Era Reagan ganham o primeiro plano.
LEVIATÃ é uma profunda reflexão sobre a América, com sua combinação de fascínio pela liberdade e fanatismo puritano. O acompanhamento dos personagens por vários anos e a irrupção da violência lembram o colega de geração de Auster, também grande escritor, John Irving. O autor de O mundo segundo Garp nos mostra, através de suas fabulações, o quanto vivemos numa corda bamba sobre o irracional, que explode a qualquer momento e arrasta todas as nossas construções afetivas e “projetos”.
Os livros de Irving têm um humor e uma pungência que faltam completamente aos de Auster, cujo mundo é seco, medido demais. De fato, talvez seja o maior reproche que se pode fazer a esse ficcionista imensamente talentoso: uma certa rigidez mecânica, que já fazia com que a ação de A música do acaso (de resto, um grande romance) parecesse concatenada demais e que é mais visível ainda na história de Peter Aaron & Ben Sachs, onde o fluir dos anos deveria dar mais maleabildiade aos acontecimentos que parecem apertados em um anel de ferro. O acaso austeriano, um acaso kafkiano, é um tanto quanto dirigido, parece ter mais a função de fazer com que os personagens se encontrem com suas necessidades e obsessões. O contingente pouco respira nessa narrativa.
E o Leviatã, o monstro que nos envolve e nos digere? O acaso, o fanatismo, o conformismo, o desespero, eis alguns dos olhos desse monstro bíblico e tão atual. Restam a explosão, o silêncio, ou a infinita paciência de um narrador/Penélope tecendo e retecendo a mortalha do amigo e das possibilidades da sua juventude. Com vemos num trecho do bilhete deixado por Sachs: “Você foi tão mais longe do que jamais fui capaz, Peter. Admiro-o por sua inocência, pela forma com que se aferrou a esse único propósito por toda a sua vida. Meu problema é que nunca consegue acreditar nele. Sempre desejei algo mais…”
Por último, que bom a Best Seller finalmente ter colocado uma capa para um livro de Paul Auster digna de seu clima instigante. É uma das melhores do ano.
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