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Das significantes mensagens passadas por Levi, a lição de que sempre há um “porém” no sofrimento que permeia os dias é a mais forte delas – mesmo que se esteja no limiar da morbidez.
Angélica Cigoli Frangella , Colaboração para a Fina
Primo Levi nos proporcionou muito mais que um livro. Com o título, “É isto um homem?”, nos impôs esse questionamento como um sussurro no peito que nos acompanha durante toda a leitura. Ao longo de poucas páginas que resumem meses de sofrimento, Levi nos guia por sua memória enquanto um judeu italiano aprisionado em Auschwitz durante o regime nazista. Detido nos dias finais de 1943, acompanhamos as barbáries pensadas principalmente com o intuito de desumanizar aqueles que estavam no campo de concentração. De cabelos raspados e com os nomes substituídos por números, agora eram apenas Algo. Judeus, homossexuais, presos políticos: independente do motivo de estarem ali, diante os olhos dos nazistas eram Coisas – ou animais, como apontado pelo autor. Levi, bem como os demais prisioneiros, não cederam a esse atentado:
“[…] justamente porque o Campo é uma grande engrenagem para nos transformar em animais, não devemos nos transformar em animais […] Sim, somos escravos, despojados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. Devemos nos esforçar por defendê-la a todo custo, justamente porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento. Portanto, devemos nos lavar, sim; ainda que sem sabão, com essa água suja e usando o casaco como toalha. Devemos engraxar os sapatos, não porque assim reza o regulamento, e sim por dignidade e alinho. Devemos marchar eretos, sem arrastar os pés, não em homenagem à disciplina prussiana, e sim para continuarmos vivos, para não começarmos a morrer.” (p. 55)
Ver um filme sobre o Holocausto é, em partes, bem diferente de ler um relato autobiográfico do ocorrido. Sempre nos deparamos com cenas acerca dos trabalhos exaustivos e que mostrem a violência da separação das famílias, por exemplo, mas e quanto a higiene desses homens? E se, por acaso, ficarem doentes, quem cuidará deles? E alguém, num ambiente tão agressivo como aquele, se importaria em cuidar? Para além da exaustão de uma tarde carregando ferro, tinham também de se preocupar em proteger seus poucos itens, como a colher com que tomavam sopa diariamente, evitando que fossem roubados por outro sujeito em desespero. Levi narra diversos episódios em que dormia com sua colher escondida, pois sem ela tampouco teria como tomar o líquido ralo que lhes serviam como única fonte de energia para aguentar os fadigosos dias no campo.
Mas há um aspecto que muito me emocionou durante a leitura: apesar de todos os pesares, a esperança estava morta, mas ainda havia uma ponta de sorte: “É estranho: de alguma maneira, sempre tem-se a impressão de ter sorte; de que alguma circunstância, ainda que insignificante, nos segure à beira do desespero, nos permita viver. Chove, mas não está ventando.”. Das significantes mensagens passadas por Levi, a lição de que sempre há um “porém” no sofrimento que permeia os dias é a mais forte delas – mesmo que se esteja no limiar da morbidez.
Terminar de ler É isto um homem? gera uma tristeza imensurável em nós, é verdade. Mas também é verdade que há uma alegria implícita, uma felicidade com estruturas diferentes que nos faz agradecer por Levi ter sido um homem tão corajoso. Apesar do inverno rigoroso, dos pés feridos, da fome insaciável, da escarlatina… Apesar do Campo, Levi teve a coragem de sobreviver e dar a nós esse tão duro depoimento. Se eu estivesse em frente a Levi, certamente eu pensaria É isto um homem – em forma de afirmação, pois certamente é assim que um homem se parece.
Infelizmente, como mostrado em algumas biografias do autor, Levi cometeu suicídio. Passada a guerra, ainda se tem de viver com o trauma.
A Segunda Guerra Mundial serve de pano de fundo, mas a barbárie não se esgotou ao final do livro. Que após essa dolorida leitura peguemos os jornais atuais, analisemos os fatos mais recentes e perpetuemos o questionamento e perplexidade de Primo Levi: esse homem que nos governa, é isto um homem?
ISTO É UM HOMEM?
PRIMO LEVI
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