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Jun24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto

... «Nestes dois Colégios, que ficaram a fazer de estabelecimentos de acesso às Faculdades propriamente ditas, digamos, onde se ministrava o ensino secundário, estudava-se a gramática, o grego, o hebraico e o latim. Segundo Teófilo, o aprendizado do grego e do latim tinha sido levado tão longe que se serviam de tais línguas. Os alunos não só falavam entre si nas sabatinas e nos refeitórios como nas teatradas e recreios. Dessa facúndia derivou o calão escolar: ver-te grego, isto para mim é grego, demonstrativo do gosto com que aprendiam as línguas que os aedos modulavam ao som de suas cítaras a celebrar Vénus, e em que os tribunos do povo proferiam suas invocações de guerra aos deuses imortais, protectores do Império. Já não era daquela opinião o marquês de Valença, nos Apontamentos para a educação de um menino nobre:
Terrível cousa é o estudo da língua latina, se não se pode aprender sem golpes, ensinando-se as vulgares sem castigo, sem o qual aprendem quase todos a debuxar, dançar, esgrimir e montar a cavalo, fazendo gosto de se aplicar a estes exercícios.
A priori, mercê dum rápido lance de olhos pela obra de Luís de Camões, se infere que não sabia o hebraico. É fácil demonstrar que também ignorava o grego. Com efeito, inspirando-se tão apaixonadamente nos poetas da antiguidade clássica e tirando óptimo partido da ciência mitológica, toda a sua onomástica é latina. Jamais emprega a terminologia grega. Esta, que é duma tão exuberante polimorfia e duma riqueza prosódica incomparável, que a Homero permite variar a cada passo as formas de expressão e que, transplantada para as línguas neo-românicas, não deixaria de enriquecer-lhe o ritmo e facilitar tantas vezes a rima, Camões nem uma só vez a usa. Acontece que Júpiter, aparecendo nos Lusíadas sob os vários nomes que lhe chamam no Lácio, jamais é Zeus, a voz melodicamente suprema, onde ressoam todos os ecos da majestade. As outras divindades tampouco figuram com o nome que receberam na Hélade, seu berço, mesmo a alma Vénus, a quem o apelido de Afrodite dá aquela aparência de brancura espumosa que guardou do mar.» ...
(continua)
publicado às 19:58