Fotografia da minha autoria (2015)

«E pede-me a paz, dou-te o mundo»

A sensação de estar numa sala de espetáculo, para assistir a um concerto de alguém que admiramos, é sempre indescritível. Porque há um vínculo emocional que nos desarma. E não importa se já tivemos a oportunidade de o ver ao vivo antes, visto que nunca é igual. Aliás, melhora a cada nova presença, porque a maturidade e o compromisso são mais profundos. Portanto, regressei ao Teatro Sá da Bandeira para escutar aquele que é, para mim, um dos nomes maiores do panorama musical português: o inigualável Diogo Piçarra.

Vem Cantar Comigo representa a sua «primeira aparição totalmente a solo em palco», explorando um ambiente mais intimista e sonoridades distintas, graças aos instrumentos que o acompanham. Além disso, para tornar cada noite da tour singular, convidou músicos que o inspiram, para duetos um pouco improváveis. Eu fui à primeira data, no Porto, e tive o privilégio de o ouvir cantar com o Pedro Abrunhosa - e logo com os dois temas que mais aprecio: Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar e Eu Não Sei Quem te Perdeu. Bem sei que a perfeição é um conceito utópico, mas estes dois momentos estiveram muito perto de o definir por inteiro.

O talento do Diogo dispensa apresentações, mas creio que nunca será demasiado destacá-lo. Pelo mesmo princípio, faz-se sempre sentido reforçar a verdade com que nos faz chegar cada letra, cada interpretação. É por esse motivo que me emociono tanto nos seus concertos: porque há uma certa poesia na maneira como preenche os palcos que pisa com tanta luz. Cenicamente, existe, ainda, um particular cuidado com os detalhes.

Da fila R, da plateia, senti-me a recuar a várias fases do seu percurso. Aos álbuns que habitam na minha estante e no meu coração - e que quase sei de cor. E dei por mim a relembrar o concerto no Hard Club, que foi a minha estreia nos seus espetáculos. Passaram seis anos e continuo a reconhecer-lhe o mesmo amor e a mesma generosidade artística. Entretanto, descobriu o dialeto que lhe assenta melhor e a identidade que pretende vincar neste meio, mas a base dos seus valores não se perdeu. E eu senti-me uma privilegiada, reconheço, por, à distância, fazer parte deste processo, estando no público sempre a transbordar de orgulho.

A noite ficou, também, marcada pela presença da Carolina Deslandes, que aceitou o repto de subir a palco para cantar a música de ambos: a Anjos. Que voz. Que energia! Estava longe de imaginar esta possibilidade, mas foi mesmo especial, até porque acho este tema de uma beleza transcendente. E que bem que eles combinam. São duas almas bonitas a acalentar aqueles que descobrem na música um puro porto de abrigo.

Pudessem as minhas palavras reproduzir, com todos os pormenores, a magia deste concerto. Porém, foi muito mais do que aquilo que podia pedir ou, sequer, imaginar. E sou tão grata por isso. Ele voltou a fazer história ♥