Ru é uma coleção de histórias que formam uma longa malha contínua. A memória, fio que ata os diferentes retalhos, não faz aparente suas costuras, age no fundo, estabelecendo uma conexão entre as narrativas
Bruno Pernambuco
Uma palavra, com a mesma sonoridade de um rio, brota da força de estar comprimida entre duas margens opostas. De um lado, a objetividade da água, em língua francesa, de outro, uma evocação móvel, no idioma vietnamita, sutil, que atiça a memória.
Ru, da autora vietnamita-canadense Kim Thúy, premiado livro de 2009 agora publicado no Brasil pela editora Âyiné, é uma coleção de histórias que formam uma longa malha contínua. A memória, fio que ata os diferentes retalhos, não faz aparente suas costuras, age no fundo, estabelecendo uma conexão entre as narrativas, embora seja, em alguns momentos, abordada como personagem observado.
Ru é uma sobreposição de lugares e de tempos, que envolve os relatos de juventude e de vida adulta da autora em um grande contexto, de repetição dos acontecimentos, de observação dos detalhes que aparecem em múltiplas imagens- sem, no entanto, negar o impacto, e a forte impressão dos acontecimentos individuais. A autora elabora a memória a partir de elementos pontuais, concretos, que se abrem em sentidos variados e sem uma moral definida. O relato histórico se concretiza em uma pessoalidade- da infância, da maternidade, da observação dos detalhes- e assim forma uma ponte entre a velha e a nova língua.
A guerra
Thúy apresenta, nos relatos de sua infância no Vietnã, um retrato da classe política da capital do país, da qual sua família fazia parte, que teve seus direitos cassados após a unificação do país sob o governo comunista, com o fim da guerra nos anos 70.
A riqueza e o modo de vida de família são descritos de um modo reflexivo, íntimo, que traz à tona as tensões existentes na família, e coloca a menina, de quem Thúy reassume as lembranças, como uma narradora que dispõe uma posição privilegiada para observar o lado oculto dos acontecimentos.
Ao mesmo tempo, as descrições da época ajudam a tornar concreta uma imagem histórica que é, muitas vezes, pouco definida. O leitor acompanha, através das personagens da família, mudanças sociais que ecoam uma longa cadeia de acontecimentos, posta em movimento desde a declaração de independência do Vietnã em relação à França, nos anos 1950, e que inclui a radicalização do envio de tropas americanas ao país, nas décadas seguintes, e a eventual vitória do Vietnã do Norte.
No relato da autora, após o desfecho do conflito, está apresentada uma das consequências mais conhecidas da conclusão da guerra do Vietnã: a imigração de habitantes vietnamitas, em especial do sul do país, para países da América do Norte, no que foi chamado, especialmente pela mídia americana, da “crise dos boat people“.
Mãe a filho
A migração para o Canadá, na segunda metade da infância de Thúy, inicia um novo processo de formação de memórias. O velho país e o novo destino se atam pela influência francesa, e o idioma que na terra natal da autora marcava uma influência distante se torna agora um meio de reelaborar o próprio ser, a própria identidade.
A descrição das viagens clandestinas de barco, e das estadias em albergues temporários, no processo de migração para o continente americano, evoca uma sensação de perigo, e de ameaça constante, e ecoa uma virada social que será concretizada na vida no Canadá, em que os pais da autora assumem empregos de zeladores e ajudantes escolares.
As memórias embaladas em Ru não necessariamente se projetam para o futuro- mais adequado seria dizer que, a partir de suas elaborações dos acontecimentos passados, elas aterrizam no tempo presente, para formar novas imagens.
Descrevendo suas experiências como mãe, e trazendo da vida de seus dois filhos observações atentas como aquelas elaboradas na memória de sua infância, Thúy alude a uma nova identidade com que encontra, a uma possibilidade de continuação da história que é narrada, de tal modo que ela deixe de ser apenas sua. A incrível precisão de Thúy, a respeito desse processo, é deixá-lo apenas começado, descrevê-lo como uma história que lê a possibilidade de sua continuação.
Ru é um trabalho excelente, tocante, de elaboração da memória, desse meandro que se devora e expele a si mesmo, que traça seu próprio caminho e dele se desvia. Kim Thúy faz da linguagem seu material, trabalhado para moldar uma escultura abstrata, uma representação daquele conceito que não pode ser descrito a não ser por uma palavra dual, bifurcada.
Editora Âyiné
Tradução: Letícia Mei
pp. 220
R$ 32,50 (Preço especial, em venda na Feira do Livro da Unesp, até o dia 8/5)/R$ 64,90