«Mergulhando as suas raízes num tal húmus, a literatura espanhola reveste-se de um cunho singular, muitas vezes impenetrável. Ela é, sobretudo, rica no sonho e na caricatura. Para o espanhol, o homem mais insatisfeito do Universo, tudo serve de pretexto ao sarcasmo. O sarcasmo da amargura. Os pintores, os filósofos, os dramaturgos, os romancistas, Velasquez, Goya, Raimundo Lulle, Cervantes, Calderon, no que mais brilham é na incisão duma máscara, no fazer surgir estados de almas atormentadas e místicas. Aí reside o génio inimitável da raça. Ora numa proporção, mínima talvez, creio ter herdado essa qualidade soberba dos nossos irmãos espanhóis. Se não a herdei, admiro-a, pelo menos, e esta admiração bastaria para explicar que uma influência da literatura espanhola, sobretudo a picaresca, se note em mim. Quem lê Cervantes, o seu Dom Quixote ou as Novelas Exemplares, não pode esquecê-lo. Alcoviteiras e casamenteiras; gata-borralheiras de estalagem e meninos bonitos depravados; aristocratas piolhosos e velhos aldeões enriquecidos pela usura; lágrimas caídas dos olhos dos anjos e risos que fazem ranger os dentes negros do demónio, eis o mundo feérico e destravado de Cervantes, que não deixa de atormentar o pensamento de qualquer romancista, de tal forma é espantoso de vida e de dor.»

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Miguel de Cervantes 

(Alcalá de Henares, 29 de setembro de 1547 – Madrid, 22 de abril de 1616)