Fotografia da minha autoria«Explico que a minha natureza é ociosa»Avisos de Conteúdo: Luto, PreconceitoO modo como alguns livros chegam à nossa vida pode ser curioso. Mas um dos que eu mais aprecio é a recomendação, pois acredito que esta partilha é valiosa. Embora já não me recorde de quem me aconselhou a leitura da obra de Ivone Mendes da Silva, sou-lhe bastante grata, porque foi uma descoberta extraordinária.CONHECER O OUTROO Fulgor Instável das Magnólias conquista-nos pelo título ondulante e pelo tom da escrita. Neste diário, ficamos a conhecer o quotidiano da autora e aquilo que foi observando e analisando ao longo de dois anos - período temporal em que decorrem estes apontamentos. Lê-la é reconhecer-lhe um lado pragmático, no entanto, à medida que avançamos nas suas palavras, percebemos a sua atenção aos detalhes, realçando uma certa nostalgia, uma certa amargura ou, simplesmente, uma certa necessidade de explanar várias circunstâncias.«Por entre as pedras onde bate o sol o musgo já começou a secar e embora eu atravesse ainda o coração do Inverno sei que esse é um curto indício de mudança e é disso que gosto»É difícil, para mim, escrever sobre livros desta natureza: não só pelo receio de revelar demasiado, mas também pela sensação de estar a expor a intimidade de alguém. Apesar disso, sentimo-nos convidados a deambular pelo seu ambiente intimista, porque Ivone abre-nos as portas de casa sem pudor. Conversa connosco de uma maneira despojada. E incentiva-nos a refletir sobre questões que a apoquentam ou que nos tocam a todos. Assim, vamo-nos conhecendo melhor e compreendendo que a vida é sempre feita de brilhos breves e intensos.«Tenho muitas vezes estes momentos de puro deslumbramento como se nas coisas mais banais nascesse só para mim um fulgor imenso»Com várias referências literárias, ausência de vírgulas [mas com sensibilidade para nos despertar o ritmo certo] e uma ordem sintática, por vezes, invertida, é um livro com um humor mordaz e uma honestidade que inebria.