nota de 2012- Saiu uma nova edição de O MANDARIM pela Tordesilhas, muito bonita, fazendo jus ao aspecto devaneante e lúdico do livro de Eça.
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de agosto de 2000)
Esta semana marca o centenário da morte de Eça de Queirós (16 de agosto). Leitura imposta no colégio, o autor de O crime do padre Amaro & O primo Basílio surpreende, entretanto, a cada revisão, pela sua genialidade. É um fato: quanto mais se lê Eça, mais ele se torna apaixonante e mais se percebe a riqueza multiforme de sua obra, a qual, de uma maneira ou de outra, escorre como areia da didática divisão em três “fases” distintas: 1) romântica, antes de sua adesão à escola realista-naturalista (são os tempos pré-Questão Coimbrã, tempos do Mistério da estrada de Sintra; 2) a programática tentativa de, bem mais do que descrever, radiografar, expor e desmascarar a vida portuguesa em todos os seus aspectos, seguindo os ditames do romance experimental de Zola (nessa fase enquadram-se seus três romances mais célebres: Amaro, Basílio & Os Maias; 3) neoromântica ou conformista, quando ele se volta a uma idealização heróica do passado português e da vida campesina (a essa fase pertencem A Ilustre Casa de Ramires & A cidade e as serras)…
O próprio Eça tinha consciência dos limites a que se impunha, ao aderir aos ditames naturalistas. Por isso, propôs a si mesmo uma “escapada”, uma pausa no reino do fantástico chamada O MANDARIM.
É a história de Teodoro, reles funcionário público lisboeta que, para animar sua vida medíocre e tediosa, tem o hábito de ler livros obscuros. Num deles encontra o seguinte desafio: se ele for capaz de tocar a campainha que está ao seu lado causará a morte de um mandarim chinês e herdará uma fortuna incalculável. O Diabo (vestido como um burguês, como mais tarde aparecerá ao Dr. Fausto de Thomas Mann) em pessoa aparece para persuadir Teodoro a tocar a campainha.
Ele o faz e torna-se um nababo. A sua existência de milionário é atrapalhada, contudo, por dois fatores: primeiro, ele sofre de um tédio incurável; segundo, o cadáver de Din Jin Fu aparece a ele em todos os lugares. Para aplacar o tédio e a consciência, resolve empreender uma viagem à China para, de alguma forma, retribuir aos chineses (ou pelo menos à família de Din Jin Fu) a sorte que lhe coube.
Não convém estragar o prazer do leitor contando os deleitosos episódios que acontecem a Teodoro na terra de Din Jin Fu. Só se pode antecipar que, saindo da China, o tédio volta e também a visão do cadáver inoportuno do mandarim, este vestígio do dia.
Será que O MANDARIM, mesmo fugindo do figurino típico com que Eça exercitou o realismo, é tão diferente dos seus outros livros? Acontece que em todas as suas obras, mesmo as mais áridas do ponto de vista da ação, Eça foi um grande experimentador. Ele seria um maravilhoso caso a ser estudado por Harold Bloom no tocante ao famoso conceito da angústia da influência. Seus textos sempre são a história que contam, mas também a história da releitura que estão fazendo de outros textos. Um caso gritante (assim como a presença de Zola em O crime do padre Amaro), para ficarmos no óbvio, é a presença de Flaubert em O primo Basílio e Os Maias, os quais dialogam respectivamente com Madame Bovary e A educação sentimental. Isso, para não falar de diversos outros autores franceses. Aliás, em várias oportunidades Eça deixou claro a importação de modelos franceses em Portugal: “É que nós imitamos ou fingimos imitar a França em tudo, desde o espírito das nossas leis até a forma dos nossos sapatos, a tal ponto que, para um olhar estrangeiro, a nossa civilização, sobretudo em Lisboa, tem o ar de ter chegado ontem de Bordéus, encaixotada no paquete das Messageries…”
Desenvolvido a partir de uma anedota narrada em O Pai Goriot de Balzac, decerto uma das influências em O MANDARIM foi a dos contos filosóficos de Voltaire (Zadig, por exemplo).
Mas este artigo pretende chamar a atenção para o fato de que Eça apenas dissimulou o figurino realista, ou melhor, expandiu-o, carnavalizou-o e fez dele uma coisa mais maleável, inteligente e criativa, tal como fez nosso Machado de Assis (um tanto quanto desafeto do português, um caso de incompreensão fascinante) no curiosamente contemporâneo Memórias póstumas de Brás Cubas (ambos são de 1881). Em ambos, apenas simula-se uma situação fantástica inicial, tudo o mais serve para a crítica e o desmascaramento da sociedade burguesa, o centro gravitacional do realismo. Ao descrever sua situação de funcionário pobre, depois a existência como milionário, Teodoro não se afasta do mundo descrito por Eça em outras obras. Quando parte para o Oriente (uma atração recorrente em escritores da época, Flaubert que o diga), sua maior “aventura” será típica do anti-herói burguês que povoa o mundo do realismo (entre eles, o Brás Cubas machadiano): o adultério.
Todavia, o prisma de O MANDARIM que mais me fascina, e que prova como Eça era um gênio, um dos maiores do seu século, que nunca se limitou a nenhum molde, mesmo quando aparentemente o fazia, é sua convergência com um dos prolongamentos do realismo do final do século XIX: a literatura decadentista. Quando nos damos conta de que o grande oferecimento do Diabo ao homem oitocentista é apenas o extremo bem-estar material (ao contrário do que Mefistófeles oferecia a Fausto: o conhecimento e a juventude), a riqueza, a possibilidade de se entediar infinitamente no mundo do consumo, já estamos no umbral da angústia estéril e triste dos personagens de Oscar Wilde (O retrato de Dorian Gray) e Huysmans (Às avessas), personagens cujo conforto material, cuja vida sensorial exacerbada e sofistica, se alimentam de um grande vazio. Um estado de coisas que a narrativa de Teodoro resume muito bem: “…uma saciedade enervante mantém-me semanas inteiras num sofá, mudo e soturno, pensando na felicidade do não-ser…”
Portanto, a “escapada” dos “tomos de 500 páginas” que abordam apenas as “coisas entristecedoras e baixas, a mesquinhez dos caracteres, a banalidade das conversas, a miséria dos sentimentos”, mostra que ele fi capaz não só de se exercitar superiormente dentro do que se fazia de melhor na ficção de sua época (Os Maias é certamente um dos maiores romances) como também intuir e até indicar os caminhos secretos que “perverteriam” o realismo-naturalismo e modificaria a literatura até empurrá-la em direção ao modernismo.







