Gustavo Piqueira/Divulgação- Lote 42
“O” é um livro repleto de ar, lançamento do designer Gustavo Piqueira
Matheus Lopes Quirino
O que veio primeiro: o ovo ou a galinha? Desse dilema ancestral, o artista gráfico Gustavo Piqueira, 48, passou longe, embora pareça andar em círculos em seu novo livro, simplesmente “O”. “O” e ponto, nada mais. É na figura da vogal O, ou num círculo, um zero, enfim, que o infinito é representado: nesta forma geométrica sem arestas.
Um ovo, um sol, uma lua, um farol. O ralo da pia. Piqueira, que há anos se aventura pelas artes gráficas, com livros de colagens, releituras de fotografias e intervenções do offset à serigrafia, é um dos pioneiros da produção artesanal hightec, dos quais muitos de seus livros, como “O”, saíram pela Lote 42, desde a criação da editora, em 2012.
Piqueira não é um artista minimalista. Nem neoconcretista. É um designer. Dono da Casa Rex, um dos mais respeitados estúdios paulistanos que trabalham com identidade visual, o artista direciona na produção de seus livros a experimentação, o novo, o desafiador, à beira do convencional. Neste “O” ele prova que é possível vender um livro à primeira vista simples, mesmo quando circunda em suas páginas o enigma de uma forma que as palavras são inúteis para explicar. Mas não são em vão. Pelas páginas dá-se um trágico desfecho entre o casal Wagner e Solange.
Um novelão, com direito a polícia, gritaria, sangue, alienígenas; um círculo por página. Só um. Frases soltas como “mancha de sangue na parede”, “espaço sideral”, “prato cheio de macarrão”. Afinal, este é um livro ilustrado, só que sem ilustrações, como vem assinado na contracapa. As associações entre palavra e imagem confundem muitas vezes o olhar treinado de leitores conservadores. A história tem lombadas, lacunas, saltos, literalmente bolotas.
O círculo é um convite a se perder pelas páginas do livro. Recomenda-se voltar, ler quantas vezes for possível para assimilar, não A ou B, X ou Y, mas sim “O”. Detalhes e cenas titânicas convergem. Ora estamos pelo círculo de um monóculo, uma lupa, um caleidoscópio, a maior luneta do mundo, essencial item para ver as estrelas.
“O” é um livro de arte sem requintes. Da capa em papel betumado preto, que é o círculo, à ausência de lombada, “O” pode ser considerado um produto concretista, quiçá um ready-made. Um portal entre as pequenas peças de uma história maior, que se desenrola a partir do casal até uma outra dimensão. O fio condutor de uma narrativa aparentemente simples, mas que exige certo treino no olhar. Uma exposição devidamente catalogada em um livro – um catálogo que não é catálogo, uma sequência de zeros.
“O” também pode ser uma enrolação. Afinal, dentro do “O” não existe nada a não ser ar. Um livro repleto de ar, com algumas palavras em volta da volta. As palavras desenham paisagens, mas são palavras.
“O” é um sarro, uma espécie de caracol, que, sem mais delongas, é circular. A metáfora do caracol, que suscitou um debate acalorado na história da arte, cai bem no livro de Piqueira. Quando em “O” se quebra qualquer visão pré-estabelecida, sobre forma, conteúdo, imagem, pode-se levar em consideração a visão do historiador da arte Daniel Arasse a partir do estudo da concha de um caracol. Ele se diverte e vai de afronte à crítica ortodoxa,
Arasse questiona quais são os elementos importantes no quadro Anunciação, de Francesco Del Cossa, uma têmpera sob madeira. A cena gira em torno do anjo em visita à Virgem, referência à literatura bíblica, que muito é analisada não só na história da arte, como na teologia. Arasse vai além do aspecto ritualístico, da devoção, da fábula bíblica. Escala o elemento do caracol para se debruçar sobre lentidão, protagonismo, arquétipos terrenos. Como Piqueira, às vezes ignorando sua própria história, centra no “O” todos os holofotes. Afinal, o “O” é o protagonista ou coadjuvante do que, abaixo, dentro, ao lado dele se desenrola? Vale também ao caracol.
O livro também é espaço, respiro. É uma mistura das muitas interpretações que se pode ter a partir do círculo, com outras infindáveis. “O” é um convite à imaginação. De lugares antológicos como A Dança, de Matisse, ao olho de Medéia, que petrifica, ao homem Vitruviano que tem em sua cartografia um círculo perfeito. O “O” está em todos os lugares. Está no cânone, como está em uma esfiha de frango com cheddar – como coloca Piqueira, em dado momento. Do cânone, matemático, “O” é, sobretudo, filosófico. Sua intenção é justamente desarmar as intenções, colocar a mona para funcionar, incentivar o leitor a andar em círculos.
Uma leitura rápida, um tiro no pé. Requer paciência adentrar no universo imaginado por Piqueira. Ordinário e violento, o grande “O” faz com que a narrativa o parasite.
O mundo é uma bola, que cai no pé do menino. E por aí vai a cantiga que embalou a infância de milhares de brasileiros. Assim como a lua, o sol, o ralo da pia, a pelota também tem sua hora. Ela corre entre os pés dos meninos, salta para uma cena bucólica de vaquinhas mugindo em cima das colinas, quando o crepúsculo nasce pela manhã. Começa assim “O”, sem mais spoilers.
Voltas, como as do relógio, formam um círculo perfeito. Como a auréola que estampa todas as páginas. Um disco de vinil, uma roda, um balão, um melocoton. “O” é um livro tão sucinto, mas não como o lugar comum que julga “ter muito a dizer com poucas palavras”, ele só usa (e abusa) de uma.
“O”
Gustavo Piqueira
Lote 42
112 páginas
Novembro de 2020