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| Fotografia da minha autoria |
«Há muitas coisas pelas quais vale a pena viver»
A peça Todas as Coisas Maravilhosas foi transformadora. Estive presente e investida no momento, para absorver cada detalhe, mas não fui capaz de não me ir questionando sobre os itens que colocaria numa lista semelhante. Na viagem de regresso a casa, ainda comovida, comecei a registar as pequenas alegrias da vida.
Creio que, aos sete anos, a minha lista teria coisas como jogar futebol com os rapazes, andar à volta da escola pelos muros e ancorada ao gradeamento, a farinha de pau da minha avó materna e a bola de carne que fazíamos as duas, o cheiro a água fervida que ela bebia todas as manhãs; as viagens de camioneta até à Serra da Estrela, a pilhagem no pátio dos meus padrinhos, o fascínio de começar a escrever quadras, cantar durante as viagens de carro, andar de baloiço, contar histórias intermináveis ao jantar, ouvir o meu tio a chamar-me mijona, entrar na loja da D. Odete e ver os brinquedos novos, a sensação de desejar um irmão. E continuaria, certamente, porque nesta idade é-nos mais intuitivo observar o mundo com um certo deslumbramento.
Com o tempo, fui compreendendo a importância de não perder o espanto, de me deixar encantar pelas coisas, por mais mínimas que aparentem ser, porque são essas que contam a nossa história. Portanto, inspirada pela emocionante interpretação do Ivo Canelas, procurei listar aquilo que, para mim, é mote de uma beleza singular.
A minha urgência não é a mesma do protagonista de Every Brilliant Thing, mas partilho o efeito revitalizador, porque, para mim, vale a pena viver por tudo isto. Como escreveu Cláudia Lucas Chéu, «é uma escolha decidir onde colocamos os nossos olhos - nos picos do cacto ou na sua flor» e eu decido focar os meus neste quadro.
A MINHA LISTA DE COISAS MARAVILHOSAS
- Tulipas;
- Andar descalça;
- Cheirar as patas dos meus gatos;
- Pessoas que, ao sorrir, fazem covinhas;
- O cheiro a gasolina;
- Desapertar o soutien depois de um dia longo, fora de casa;
- A sensação de encontrar uma palavra que nos faltava;
- Os Jardins do Palácio de Cristal;
- O pôr do sol nos Jardins do Palácio de Cristal;
- A Feira do Livro do Porto;
- A possibilidade de ler um novo livro de um autor-casa;
- Gelados no inverno;
- O cheiro a maresia;
- As trivelas do Quaresma;
- Aquele segundo em que uma palavra te motiva a escrever um texto inteiro;
- As mensagens que tenho guardadas nas minhas fitas;
- O dia em que vi Eunice Muñoz a interpretar O Ano do Pensamento Mágico;
- Ter visto o Ivo Canelas a interpretar Todas as Coisas Maravilhosas, conversar um pouco com o ator, no final, e voltar a casa com o livro da Dulce Maria Cardoso autografado por ele;
- Maratonar Friends;
- Pegar no meu afilhado pela primeira vez; a primeira vez que disse o meu nome;
- Concertos d' Os Quatro e Meia e do Diogo Piçarra; o concerto dos D'ZRT;
- Raposas e andorinhas;
- Estrear um caderno novo;
- O silêncio confortável que só partilhamos com as nossas pessoas-casa;
- Pegar numa estrela do mar;
- Quando o outro percebe o que queremos sem precisarmos de verbalizar;
- Beijos na testa;
- A palavra saudade;
- A primeira vez que entrei no Dragão;
- O cheiro a terra molhada, o cheiro a lareira nas casas antigas;
- Encontrar um livro esgotado há demasiado tempo;
- A forma como pronunciavas o meu nome;
- A magia de descobrir um lugar novo;
- Os passeios pela Ribeira;
- Acordar com a casa ainda em silêncio;
- Dançar;
- Entrar numa livraria sem hora para sair;
- Os primeiros sinais de outono;
- Batons e vernizes mate;
- Festejar campeonatos nos Aliados;
- «Vi isto e lembrei-me de ti»;
- Passar férias pelo Alentejo;
- A Livraria Lello;
- Andar a pé; andar a pé e com uma máquina fotográfica;
- Trazerem-me um dedal quando vão viajar;
- A Devagar, dos Ornatos Violeta, na versão original e na versão da Tuna Musicatta Contractile;
- O aroma de um café acabado de tirar;
- Conversas prolongadas à mesa;
- Chocolate negro;
- A sensação de pertencer.
A ordem é meramente ilustrativa e sei que muito mais poderia ser acrescentado (talvez mantenha este exercício a longo prazo), no entanto, todas estas coisas têm em comum o facto de me trazerem conforto e propósito. Além disso, trazem-me memórias e o lembrete para descomplicar e ver a beleza nos detalhes.
O que entraria na vossa lista de coisas maravilhosas?
