Vergonha histórica: novo capítulo
política brasileira, ditadura militar, Jair Bolsonaro, democracia, Forças Armadas
Livros de história guardaram um lugar especial para quem descomandou o país durante crises Isabella Marzolla No aniversário de 57 anos do golpe da ditadura militar no Brasil, em 1964, nós quase ganhamos de presente outro golpe militar. Sob constante ameaça, a democracia brasileira vive seus piores anos desde a redemocratização, em 1988, quando a atual Constituição Federal foi escrita e passou a valer. O Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) está em seu pior momento do mandato: maior taxa de reprovação, 47%, perda de apoio do empresariado e da elite – esgotou-se a paciência com a lentidão da vacinação no país, com a má condução do governo na pandemia e a economia em flagelos carregando 14,3 milhões de desempregados, ante 6 milhões de pessoas de desalentados – que eram de grande valor à sua base. O Centrão já deu sinais de descontentamento, inclusive pelos presidentes das duas casas do Congresso e parece ainda tolerar a gestão porque consegue abocanhar cargos importantes (famoso “troca-troca” ministerial) dentro do governo e aprovar projetos que deseja. Pressionado mais do que nunca e de todos os lados, Bolsonaro arquiteta o seu plano de golpe militar, plano que rememora seus tempos como capitão do Exército, da ativa, quando cursava a Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais (ESAO) e morava na Vila Militar, Zona Norte do Rio. Na época, em 1987, o ato de “rebeldia” proposto como então tenente, foi o plano ‘Beco sem saída’, explodir bombas de baixa potência em banheiros da Vila Militar, da Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende (RJ), e em alguns quartéis próximos. No ano seguinte, em 1988, Bolsonaro foi transferido para a reserva automaticamente ao ser eleito vereador no Rio de Janeiro. Aficionado pelo “seu Exército”, o Presidente sofreu uma grande desilusão amorosa na terça-feira (30/03) quando os três comandantes das Forças Armadas, Edson Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Moretti Bermudez (Aeronáutica) entregaram seus cargos em conjunto, seguindo o exemplo do então Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, conforme informado por meio de nota oficial. De bate-pronto, o Exército dispensou a iniciativa de um possível golpe e reiterou as Forças Armadas brasileiras como uma Instituição do Estado, não interferindo diretamente nos meandros políticos do País. Não satisfeito, Bolsonaro ainda pode buscar outros comandantes que sejam afeitos à ideia do Golpe. O alto oficialato do Exército pode não se sentir à vontade, mas uma boa parte dos médio e baixo escalões, sim. De acordo com Sérgio Abranches, sociólogo e cientista político, “a maioria do grande oficialato brasileiro concorda com o general Fernando de Azevedo Lima, que na carta de demissão disse que fez tudo para deixar as Forças Armadas em linha com a Constituição, ou seja, não como um braço do governo. (…) Acho que ele ainda tem apoio em alguns oficiais das Forças Armadas, mas minoritários, na média e baixa oficialidade, e nos soldados”. Em tempo, o Brasil possui instituições relativamente fortes, que poderiam conter uma investida ou indícios de intervenção militar. Mas se ela realmente acontecesse, teria que ser extremamente bem articulada e planejada. Será que o ex-capitão reformado, Jair Bolsonaro seria capaz de comandá-la? Enquanto isso seguimos dentro de nossas casas – os que dispões deste privilégio – acompanhando o desenrolar da História brasileira, aflitos de que talvez este seja um dos períodos mais vergonhosos, especialmente da perspectiva internacional, que vivemos como sociedade. Os livros de história guardaram um lugar especial para quem comandou o país durante estes anos, basta saber quem quer estar do “lado certo ou do errado”. *É jornalista, também escreve no blog Inconsciente Coletivo
Texto originalmente publicado em Revista Fina