Ouvidos

Quando estou sozinha,

sento os mortos à mesa

e dou-lhes de comer -

um prato a cada um, em


troca dessas histórias que

morro de saudades de os

ouvir contar. E escuto-os


com a velha paixão - tal

qual estivessem vivos -

para não me fugirem as

suas vozes da memória.


Às vezes choro, claro -

e nem é por eles já não

terem dentes e me

deixarem quase tudo no


prato; mas por os ver ali,

ao pé de mim, e me sentir

na mesma tão sozinha.



em "O meu corpo humano" de Maria do Rosário Pedreira, pág. 28

Advento #10

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