Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Terminei hoje meu primeiro livro do autor amazonense Milton Hatoum, um acadêmico, Doutor em Teoria Literária, professor de literatura e que se revelou um papa-prêmios literários (três Prêmios Jabuti e um Prêmio Portugal Telecom de Literatura).
Encontrei o livro, para variar, num sebo, e a aquisição foi parte da minha busca por autores contemporâneos brasileiros. O livro tem cerca de 270 páginas e a leitura foi bem rápida (aproveitando dois dias seguidos de viagem para o interior do estado).
Conta a história de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, pertencentes a uma família de origem libanesa que vive na Manaus do início do século XX. Eles são bastante diferentes e desde a infância desenvolvem uma rivalidade que logo culminará em um ódio tremendo, para tristeza de toda a família (os pais, Halim e Zana, a irmã Rânia, a empregada Domingas e seu filho, Nael, o narrador do romance).
Nael conta a história através de reminiscências, que vão desde o início da história de amor entre Halim e Zana, até a morte de ambos. Nesse grande intervalo acontece muita coisa: uma briga ainda no início da adolescência entre os gêmeos, provocada por um interesse amoroso comum resulta em Omar atingindo o rosto de Yaqub com uma garrafa quebrada, deixando uma cicatriz que marcaria o ódio entre ambos. Tentando evitar uma possível vingança, os pais enviam Yaqub ao Líbano, onde ele passa cinco anos, remoendo-se de ódio de todos por ter sido afastado de tudo que ele gostava. Ao voltar, passa a concentrar-se nos estudos, enquanto Omar vive mimado pelas três mulheres: a a irmã, Domingas e especialmente a mãe, que encobre seus defeitos. Ele passa a ser um boêmio, e os caminhos dos gêmeos parece se afastar, mas há reencontros cada vez mais perigosos.
Numa narrativa que remeteu-me a Crônica da Casa Assassinada (o núcleo da história é o mesmo: a decadência de uma família), fiquei mais do que satisfeito em conhecer Milton Hatoum. A prosa dele é muito consistente, rica, cheia de personalidade, elegante. A narrativa, não linear, convence inteiramente de que as memórias pertencem a uma pessoa e referem-se a fatos reais, e não somente foram inventadas habilmente por um escritor.
Recomendo o livro inteiramente.
