Luiz Divino do Lago (Facebook: https://www.facebook/luilago ; Instagram: @luizdivinolago) ficou em terceiro lugar, com o conto abaixo.


Gerô

E foi quase tropeçando em sua própria cabeça que Gerô desceu a Brigadeiro no fim da madrugada. Um ruído insistente ecoando dentro do ouvido, devia ser o tapão do Negrão, a mão aberta e áspera encaixada em todo o lado direito da sua cabeça, o ouvido no meio. Parecia que o cérebro ia voar pelo outro lado.

Ele sentou na calçada por um instante ali perto da saída pra Radial e olhou de volta para o alto da avenida. Se ainda tivesse pernas ele voltaria lá, com alguma coisa nas mãos pra dar um fim na rapaziada. Mas calculou que o dia ia nascer dali há pouco, já havia até algum movimento de ônibus lá na direção do Largo São Francisco. Parecia conveniente e o sussurro em seu ouvido dizia outro nome, covardia. “O mundo não acaba hoje, amanhã talvez, pra mim e pra eles”, concluiu, apaziguando a consciência.

Capengou até o beco paralelo à avenida. Silêncio completo nos casarões, sinais de fogueira, restos de lixo, alguns carros velhos enfileirados, um caminhão passou com uma buzinada longa saindo para a 23 de maio, parecia um aviso.

Ele desceu para o porão. A porta do banheiro estava fechada, o que não fazia sentido já que metade dela estava arrebentada. Ele viu a bunda de Nádia encaixada no vaso sanitário, um cheiro ácido espalhava-se pelo quarto. O fio de fumaça de cigarro saía pelo vão, no alto da porta, ela gemia entre uma tragada e outra.

Gerô sentou-se no colchão no chão e deixou o corpo cair, o rosto se alinhou com uma poça de água que vinha do canto da parede, o cheiro de bolor e roupas úmidas ia formando uma mistura que aguçava a revolta, havia alguma coisa errada naquilo tudo. Mas a vontade de dormir era maior, então esqueceu.

Três descargas seguidas e Nádia saiu na porta. Estacada de pé, olhava Gerô querendo fechar os olhos. Estava nua. Puxou um último trago e jogou a bituca já no osso para o alto de um resto de escada, Gerô abriu e fechou pesadamente os olhos. Ela veio e se deitou ao seu lado, em silêncio.

Chegou o barulho de uma porta de bar erguendo-se. Alguém com um sotaque do norte perguntou alguma coisa do outro lado das folhas de compensado que dividiam o porão. E repetiu em seguida, o mesmo sotaque e a mesma pergunta. Nádia avisou “Gerô dormiu”. Silêncio.

Um caminhão passou pela rua estreita e chacoalhou a casa. Um pedaço do reboco do teto se soltou e caiu na poça, trazendo ondas até perto da boca de Gerô, que roncava pesado, a orelha do tapão em fogo. Nádia observou tudo por um instante.

Logo o barulho de uma porta raspando o chão veio do canto da parede de madeira. O homem do sotaque balbuciou alguma coisa e a lâmpada amarelada às suas costas desenhava as dobras nos dois lados do pescoço. Nádia levantou-se. “Aproveita que ele tá dormindo, nem vai sentir”, disse ela, antes de enfiar-se num vestido florido e sair.


Apesar de muito curto, é um conto potente. “Parecia que o cérebro ia voar pelo outro lado” é uma boa imagem, visualmente simples e direta. “Tropeçando em sua própria cabeça” não é tão bom assim, mas passa.

“Silêncio completo nos casarões, sinais de fogueira, restos de lixo, alguns carros velhos enfileirados”. Talvez aquele “completo” ali esteja sobrando, mas é melhor que tentar ser poético e enfiar um “sepulcral” ou coisa do tipo.

As referências geográficas situam o leitor em São Paulo, mas de forma vaga, sem ficar querendo desenhar um mapa, o que é sempre chato.

“A porta do banheiro estava fechada, o que não fazia sentido já que metade dela estava arrebentada.” Ótima imagem.

“ folhas de compensado que dividiam o porão”. Estamos num casarão abandonado, ocupado por mendigos. Nada disso é dito claramente, apenas sugerido, mas funciona.

Quem bateu em Gerô? Por quê? O que vai acontecer agora? Fica tudo em aberto, aguçando a curiosidade, oferecendo apenas o retrato de um momento.

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