Publicado nos Estados Unidos em 16 capítulos, entre 1991 e 1996, Do Inferno é uma das obras que mais reli na minha vida. Um épico em quadrinhos que trata da Inglaterra vitoriana no geral e de um de seus mais emblemáticos personagens em particular: Jack, o Estripador.
Jack, o Estripador é um assassino real, que matou ao menos 5 mulheres no ano de 1888. É um caso especialmente bem documentado e, ironicamente, nunca resolvido. Por outro lado, teorias não faltam. Sites especializados, programas de televisão, filmes, livros; Jack é um assunto irresistível.
O título Do Inferno (no original From Hell) se deve à uma carta enviada à polícia durante a investigação. Esta carta, cujo cabeçalho trazia as palavras título, é reputada a única carta escrita verdadeiramente pelo assassino.
E esta premissa foi muito bem trabalhada em Do Inferno. Trabalhando com a hipótese de que as mortes foram causadas por uma conspiração maçônica, e perpetrada por Dr. William Gull, eles não montam o filme como o mistério “quem foi Jack, o Estripador”. Sabemos na primeira morte que Gull é o assassino.
Do Inferno vai atrás dos comos e porquês. Seja pela relação imprópria entre o Príncipe Albert e uma plebeia, por sua amizade com Walter Sickert – este muito próximo de Mary Kelly -, Alan Moore roteiriza um possível passo a passo para a ocorrência dos crimes.
São quase cinco capítulos ambientando o leitor na Inglaterra e à vida de Dr. William Gull. Entre eles, um inusitado passeio pela cidade, uma verdadeira aula de cultura maçônica. A narrativa é toda baseada em detalhes, com muitas referências históricas. O traço de Eddie Campbell, sublime em perspectivas, é um tanto trêmulo quando retrata pessoas.
Essa incerteza dos traços dá um tom sombrio à obra, já bastante carregada pelo jogo de sombras inerente a um quadrinho em preto e branco. O tom da narrativa é ditado pelo traço, numa parceria muito bem sucedida entre Alan Moore e Eddie Campbell. Do Inferno não poupa o leitor mais sensível nem da sexualidade que envolve a vida das prostitutas, nem da violência dos assassinatos.
Ainda assim, o que predomina na narrativa, depois da morte de Polly Nichols (a primeira vítima), são os esforços do Detetive Abberline e a investigação quase paralela de Mr. Lees, o vidente real. Enquanto os crimes vão ficando mais bárbaros, o inquérito policial é atrapalhado pela imprensa e por maçons.
A história vai além da simples investigação. Trabalha com uma teoria extensamente pesquisada tanto por Alan Moore quanto por Eddie Campbell, e escrita de forma a escamotear ou dar razões para o surgimento das demais teorias. É mesmo difícil, às vezes, lembrar ao cérebro de que se trata sumariamente de uma obra de ficção, com base em fatos.
Ainda que o leitor já tenha visto o filme ou lido a obra anteriormente, posso garantir que cada leitura traz em si novas surpresas, seja nas referências, seja pela precisão do traço de Campbell ao retratar a Londres vitoriana naquele ano fatídico em que Jack, o Estripador por lá passou.