Lisboa nazi | Sérgio Luís de Carvalho

Capital de um país neutral e porta de saída da Europa em guerra, Lisboa foi local de passagem, repleto de refugiados, oportunidades e espiões. A paz reinante fazia da cidade um local aprazível e tranquilo, um sopro de esperança para muitos. Era expectável que surgisse uma geografia de lazer e que, à sua maneira, espelhasse o povo recatado e ordeiro que não se metia em confusões e reprimia as preferências políticas.

Germanófilos ou aliadófilos, os portugueses eram tutelados por uma figura maior do que Hitler e Mussolini, e que se sobrepunha a todas as fidelidades: o ditador Salazar. A que se somava a eterna apetência dos portugueses para arrecadar uns patacos que contribuam para o modesto pecúlio familiar, ditando, por cima das preferências, a sua lealdade a um dos campos. A disputa ideológica na comunicação social era mitigada pela vigilância imposta por um cauteloso Salazar que dissuadia qualquer excesso de ambas as partes. Na imprensa germanófila, evitavam-se as críticas diretas à Inglaterra – a nossa mais antiga aliada- sendo a democracia, essa porta aberta à besta do comunismo, o alvo a abater. O nazismo surgia como a ponta de lança dos valores cristãos/europeus contra o bolchevismo asiático. Não se tratava da Alemanha contra os aliados, mas de todo um continente europeu liderado por Berlim contra o comunismo. Impedidos de um debate político sério, apoiantes de ambos os lados, resvalavam para o insulto e envolviam-se em garotices com a fralda de fora

A imprensa aliadófila gozava de maior adesão, com relevo para a BBC, considerada a voz da verdade e, nem mesmo quando se viu forçada a despedir um dos seus jornalistas portugueses, para não desagradar a Salazar, ficou afetada na sua imagem de credibilidade. Nem sempre foram tempos fáceis para a causa germanófila. No escuro das salas do cinema, a tosse e alguma pateada acolhiam as imagens de soldados alemães ou de Hitler, enquanto os aliados eram saudados efusivamente com vivas ao Benfica.

Várias personalidades portuguesas aderiram à causa alemã e não esmoreceram quando a derrota das forças do Eixo começou a desenhar-se. O Holocausto não era conhecido em toda a sua extensão, embora não fosse possível ignorar -quanto mais não fosse pelos refugiados- a forma como o nazismo lidava com a causa judaica. Mesmo com a revelação da extensão das atrocidades, os germanófilos portugueses conservaram um prudente silêncio ou assumiram a condição de derrotados, e nunca se retrataram. O aparelho do Estado não lhes guardou rancor e revelou-se generoso. Lisboa foi o palco privilegiado para se entender o país que manteve a neutralidade e que, no pós-guerra, logrou conservar as possessões coloniais. Este livro é um testemunho privilegiado de como tudo isso foi possível e, acima de tudo, aconteceu.

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