(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 13 de dezembro de 2011)
“Sou imenso, contenho multidões”. Se tivesse de apontar o maior evento editorial de 2011, sem hesitação escolheria a tradução de Bruno Gambarotto para Folhas de Relva-Edição do Leito de Morte, lançada com o capricho habitual da Hedra. É, finalmente, a edição séria, bem cuidada e bonita que a súmula da produção poética de Walt Whitman (1819-1892) exigia. Pois, por incrível que pareça, a única versão integral dessa obra-prima fundamental era a da Martin Claret, com aquele estilo meia-boca e descuidado (quando não suspeito) de que essa editora é useira e vezeira.
Houvera a notável edição da Iluminuras, mas se tratava da tradução (de Rodrigo Garcia Lopes)da primeira edição de Folhas da Relva (em 1855), com 12 poemas. A Edição do Leito de Morte foi a nona edição e abarca cerca de 380 poemas. É a obra de uma vida, é o arremate final na construção do mito Whitman, o maior dos poetas americanos. E que foi esse raro fenômeno: um escritor absolutamente original: nunca antes dele alguém escreveu desse jeito, nem utilizou tal temática ou tal vocabulário. É uma experiência de liberdade absoluta, consoante à do país que se transformaria na maior potência mundial e que já se configurava nos anos de vida de Whitman. Ele representa o que de mais norte-americano (para o bem e para o mal) podemos pensar: o desejo de se expandir, de ter um destino grandioso, de incorporar pessoas, culturas, de simbolizar a “democracia”.
É por isso que lemos no fundante Canção de Mim Mesmo (um dos poemas mais extraordinários já escritos): “Vejo que incorporo gnaisse e carvão e a longa malha de musgo e as frutas e grãos e raízes comestíveis/ Estou inteiro revestido de pássaros e quadrúpedes/E longe do que está atrás de mim por boas razões/Mas chamo qualquer coisa para perto de mim quando quiser.”
Em outro trecho: “Grandes têm sido os preparativos para mim/Fiéis e amigos os braços que ajudaram// Ciclos conduziram meu berço, remando e remando como alegres barqueiros/Para me dar espaço as estrelas permaneceram afastadas em suas próprias órbitas/Elas enviaram influências para cuidar do que me havia de dar sustento// Antes de nascer da minha mãe gerações me guiaram…”
A todo esse otimismo cósmico, a essa coesão de tudo, de repente sucede uma quebra trágica: no meio do livro temos os poemas sobre a Guerra de Secessão, a divisão do país, a carnificina impressionante que foram essas lutas, durante cinco anos. E a partir daí, o tom se torna mais melancólico, elegíaco, os plenos pulmões respirando o ar do universo cedem lugar a uma respiração menos abrangente. O grandioso se fora, mas ficara o tecedor de imagens, cada vez mais voltado para o passado, porém já tendo afirmado sua presença (sua influência abarca poetas tão díspares quanto Pessoa, Neruda, Maiakovski, Borges, para citar alguns): “Tece, tece, minha valorosa vida/ Tece ainda um soldado forte e a postos para as grandes campanhas do porvir/Tece o sangue vermelho, tece tendões como cordas, os sentidos, a visão, tece, tece/ Tece a última certeza, tece dia e noite a trama, o enredo, tece sem cessar, não para( …)/ Pois as grandes campanhas de paz têm do mesmo modo os fios trançados de tecer/Não sabemos o que ou por que, mas tecemos, para sempre tecemos.”
Como Tolstói (apesar das diferenças), esse projeto literário-existencial que é Folhas de Relva acabou alçando Whitman a territórios mais escorregadios como a posição de guru, mestre espiritual e coisas do gênero. Mas eu o prefiro sem tanta reverência, tal como caracterizado nos seu maior poema: “Turbulento, carnal, sensual, comendo, bebendo, respirando/ Sem sentimentalismo, sem ficar acima de homens e mulheres ou distante deles.”
TRADUÇÕES
Como tantos em minha geração, tomei contato com Whitman em língua portuguesa através da seleção/ feita por Geir Campos e publicada pela Brasiliense (à época no auge da popularidade), em 1983: Folhas das Folhas de Relva. Na verdade, esse volume é uma versão refundida de uma edição lançada pela Civilização Brasileira em 1964, e difere dela pela disposição diferente dada aos versos whitmanianos, que foram “quebrados”, perderam aquele aspecto oceânico, até porque a edição é mais de bolso do que outra coisa, e o verso curto é que mais combina com ela.
Foi uma disposição acertada? Não sei agora, e muito menos poderia sabê-lo aos 18 anos, em 1983. Só sei que Whitman, então, parecia contrariar tudo o que eu esperava da poesia, portanto me irritou, me enfastiou, e tive muitas dificuldades com ele (então, foi até um acerto que o tradutor e a editora aplainassem um pouco as dificuldades).
Vejamos como Geir Campos traduziu o seguinte trecho de Canção do Respondedor (Song of Answerer), cujo núcleo poético faz parte de Folhas de Relva desde a edição original:
“…as palavras do fazedor de poemas
são o geral da luz e da sombra;
o fazedor de poemas estabelece a justiça,
a realidade, a imortalidade,
ele envolve em sua visão e força
as coisas e a raça humana,
é ele a glória e a essência até aqui
das coisas e da raça humana.
Os cantores não criam, o Poeta cria:
cantores são bem-vindos, bem compreendidos,
aparecem com bastante frequência,
mas raros têm sido o dia e o lugar
do nascimento do fazedor de poemas
–o Respondedor.
(…)
Por todo esse tempo e em todos os tempos
ficam à espera as palavras
dos poemas de verdade:
as palavras dos poemas de verdade
não apenas agradam,
os Poetas de verdade
não são acompanhantes da beleza
e sim augustos mestres de beleza.
A grandeza dos filhos
é o que transpira do que têm de grande
as mães e os pais;
as palavras dos poemas de verdade
são o buquê e o aplauso final
da ciência.
Intuição divina, vista larga,
a razão como lei,
primitivismo e saúde do corpo,
retraimento, contentamento,
carne curtida ao sol, doçura de ar
–eis algumas palavras de poemas.
O marinheiro e o viajante fundamentam
o fazedor de poemas—o Respondedor;
o construtor, o geômetra, o químico,
o anatomista, o frenologista, o artista,
todos contribuem para
o fazedor de poemas—o Respondedor.
As palavras do poema de verdade
dão a vocês muito mais que os poemas:
dão a vocês com que possam compor
os seus próprios poemas,
religião, política,
guerra, paz, contos, ensaios,
o dia a dia da vida
e tudo o mais,
dão o balanço de castas, cores, raças,
credos e sexos;
beleza mesmo os Poetas não procuram…”
Na versão de Rodrigo Garcia Lopes para a primeira edição (1855) do livro, publicada pela Iluminuras, tal trecho não será encontrado, já que Whitman, fiel ao seu furor expansionista, aumentou consideravelmente o poema desde então.
Já na versão de Luciano Alves Meira para a Martin Claret (2006), está tal como se segue (com o título Canção do Respondente):
“… mas as palavras do autor de poemas são a própria
[luz e escuridão.
O autor de poemas estabelece a justiça, a realidade,
[a imortalidade,
Sua luz interior e seu poder envolve as coisas
[e a raça humana.
Ele é a glória e o extrato longínquo das coisas
[e da raça humana.
Os cantores não criam, apenas os Poetas criam,
Os cantores são bem-vindos, compreendidos,
[aparecem com bastante
[frequência, mas são raros os dias ou
[as oportunidades de
Nascimento dos autores de poemas, os Respondentes.
(…)
Todo esse tempo e em todos os tempos, espere
[pelas palavras dos poemas verdadeiros,
As palavras dos poemas verdadeiros não são aquelas
[que simplesmente agradam,
Os verdadeiros poetas não são os seguidores da beleza,
[mas os augustos mestres da beleza;
A grandeza dos filhos é a exsudação da grandeza
[das mães e dos pais,
As palavras dos poemas verdadeiros são a coroa
[e o aplauso final
da ciência.
Instinto divino, amplitude da visão, a lei da razão,
[saúde, rudeza do corpo, capacidade de se retirar,
Alegria, pele morena, doçura do ar, essas são
[algumas das palavras dos poemas.
Os marinheiros e os viajantes subjazem
[aos autores de poemas, os Respondentes,
O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista,
[o frenologista, o artista, todos esses
[subjazem ao autor de poemas, o Respondente.
As palavras dos verdadeiros poemas dão-te
[mais do que poemas,
Elas são a matéria-prima para que possas fazer
[tu mesmo poemas,
[religiões, política, guerra, paz, comportamento
[história, ensaios, vida diária e tudo o mais,
Elas põem em equilíbrio as categorias, as cores,
[as raças, os credos, e os sexos,
Elas não procuram a beleza…”
E na versão de Bruno Gamborotto volta a ser Canção ao Respondedor, e o trecho fica assim:
“…mas as
palavras do fazedor de poemas são a luz e a escuridão totais,
O fazedor de poemas instaura a justiça, a realidade, a imortalidade,
Sua visão e poder englobam as coisas e a raça humana,
Ele é a glória e a extrai das coisas e da raça humanas.
Os cantores não dão a vida, apenas o Poeta dá vida,
Os cantores são bem-vindos, compreendidos, aparecem até demais,
[mas raro tem sido
o dia, e também o lugar, do nascimento do fazedor de poemas,
[o Respondedor
(…)
Hoje e sempre as palavras dos verdadeiros poemas são aguardadas,
As palavras dos verdadeiros poemas não são somente agradáveis,
Os verdadeiros poetas não são seguidores da beleza, mas
[os augustos mestres da beleza;
A grandeza dos filhos é a exaltação da grandeza dos pais e das mães,
As palavras dos verdadeiros poemas são os louros e
[o aplauso final da ciência.
Instinto divino, abrangência da vista, lei da razão, saúde,
[corpo bruto, afastamento,
Felicidade, pele bronzeada, ar fresco, essas são algumas
[das palavras dos poemas.
O navegante e o viajante estão na base do fazedor de poemas,
[o Respondedor,
O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista,o frenologista,
[o artista, todos dão
Sustentação ao fazedor de poemas, o Respondedor.
As palavras dos verdadeiros poemas dão a você mais do que poemas,
Elas dão a você a formação de seus próprios poemas, religiões,
[política, guerra, paz,
Comportamento, história, ensaios, vida cotidiana e tudo o mais
Eles equilibram hierarquias, cores, raças, credos e os sexos,
Eles não procuram beleza…”






