Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Como ontem inventei de falar dos melhores começos de filmes, não poderia faltar um post sobre os melhores começos de livros, naturalmente. Eu lembro que vi há algum tempo esse post, do Blog Todoprosa, de Sérgio Rodrigues, e me chamou bastante a atenção.
Para nós, que amamos os livros, há frases que nos fisgam, que atingem alguma parte do cérebro/coração, fazendo a voz embargar, os olhos marejarem, um ricto involuntário esboçar um sorriso…
Eu nunca havia parado, todavia, para prestar atenção aos começos dos livros, e vendo essa lista – e correndo atrás de outras – revi começos de livros que eu já havia lido e pensei: “Como pude não reparar nisso?”
A lista traz “começos inesquecíveis esquecidos”, alguns dos quais destaco abaixo:

Todos vocês conhecem essa intratável melancolia que se apossa de nós ao recordarmos os tempos felizes. (Ernst Jünger, “Sobre as falésias de mármore”)

Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. (Philip Roth, “Complexo de Portnoy”)

Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. (Clarice Lispector, “A maçã no escuro”)

Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. (Cyro dos Anjos, “O amanuense Belmiro”)

Mas no próprio blog Todoprosa há uma seção voltada exatamente para os “começos inesquecíveis”, dentre os quais aparecem começos que figuram em diversas outras listas que encontrei na internet (como, por exemplo, no site Vísceras Literárias). A título de exemplo, cito:

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. (Vladimir Nabokov, “Lolita”.)

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. (Albert Camus, “O estrangeiro”.)

Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto. (Franz Kafka, “A metamorfose”.)

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. (Machado de Assis, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. (Leon Tolstoi, “Ana Karenina”)

Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. (Italo Calvino, “Se um viajante numa noite de inverno”)

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (…). (Charles Dickens, “Um conto de duas cidades”)

Chamem-me Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. (Herman Melville, “Moby Dick”.)

Dos livros citados acima, não li quatro: Nabokov, Tolstoi, Dickens e Calvino. Mas que esses começos me deixam com vontade, sem dúvida deixam.

Aproveito aqui para acrescentar três obras (não pude rever minha pequena coleção de livros para rememorar outros começos em virtude da reforma em casa – meus livros estão temporariamente quase inacessíveis):

Primeiro, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que ainda não li, mas que tenho absoluta certeza de que vou gostar, considerando o tema. Começa assim:

Queimar era um prezar. Era um prazer especial ver as coisas serem devoradas, ver as coisas serem enegrecidas e alteradas. (Fahrenheit 451, de Ray Bradbury)

Outro livro, que também ainda não li, mas que o farei em breve, é do escritor simãodiense Paulo Dantas. Trata-se de Chão de Infância, primeiro volume da trilogia sertaneja, composta também por Purgatório e O Livro de Daniel. O romance começa de uma forma impressionantemente bela:

Abraçado à minha mulher, na cama, a olhar o dia que nascia pela janela, perguntei-lhe:

– É aqui que eu moro? (Chão de Infância, Paulo Dantas)

E, por último, aquela que é a realização literária de sempre para mim, como diriam os portugueses:

Eu sou um homem ridículo. (O sonho de um homem ridículo, Dostoiévski)

E aí, quem se habilita a acrescentar títulos a esta lista?

P.S.: Havia esquecido. No site American Book Review há uma lista com os melhores cem começos de livros. Claro que não há livros brasileiros e a lista está em inglês, mas vale a pena dar uma olhada.