Luciene Azevedo

Créditos da imagem: Laura Lima, El mago desnudo

Estou interessada nas tensões (sempre vivas) entre a história e a literatura. Reli recentemente o livro de Ivan Jablonka que pensa a história como uma espécie de ‘literatura contemporânea’. O próprio Jablonka produziu narrativas que embaralharam esses campos e podem servir como exemplos das premissas que desenvolve em seu “manifesto pelas ciências sociais” ao se deter nos desafios enfrentados pela teoria da história hoje. 

Muito resumidamente, o que Jablonka defende é que a divisão aristotélica entre história e literatura funciona ainda como um impedimento à conversa mais aberta entre as áreas porque engessa o lugar da história aproximando-a de um procedimento neutro e neutralizador das perspectivas do historiador, condenando sua presença no texto. Rejeitando o panficcionalismo e o apagamento das fronteiras entre os discursos, Jablonka afirma que a literatura tampouco está condenada à própria linguagem, pois mantém um longo diálogo com o realismo que a legitima com uma prática investigativa que reelabora mundos e verdades. 

Na visão do historiador francês, a produção historiográfica atual só tem a ganhar caso abrace a especulação, a conjetura, o desvelamento dos passos investigativos do historiador na própria produção, deixando-a à vista do leitor. Saidiya Hartman parece atender a essa caracterização ao nomear sua prática como não ficção especulativa. E muitas obras ainda chamadas de literárias no presente aprofundam o que o crítico argentino Reinaldo Laddaga chama de estado de estúdio, quando o escritor mostra sua casa de máquinas para o leitor e faz uma colagem de formas de composição que mesclam a reprodução de documentos (pessoais ou não) à investigação sobre sua própria identidade. Os exemplos são muitos, mas poderia mencionar aqui o livro de Felipe Charbel (ele mesmo professor de história), Saia da frente do meu sol, ou o objeto inespecífico, A água é uma máquina do tempo, de Aline Motta, que integrando uma exposição de artes visuais é também livro publicado por uma coleção de poemas.

Mas o que mais me chama a atenção no argumento de Jablonka é o fato de que refletindo sobre obras literárias que flertam com a extensiva pesquisa em arquivos sobre temas históricos, como As benevolentes de Jonathan littel sobre o nazismo, é veemente ao condenar o “rechaço de toda autoridade, inclusive a dos fatos e dos documentos”, prolongando (indevidamente, na sua opinião) a autonomia artística conquistada no século XIX. 

Embora essa posição seja de se esperar, já que Jablonka acredita que, mesmo assumindo a postura do investigador, o historiador deve respeitar o fato, chama a atenção que, ao contestar a autonomia conquistada pela arte, o historiador francês a condene ao “terreno político” em disputa que acende uma luz vermelha em tempos de ascensão da extrema direita e dos negacionismos históricos, já que desrespeitando o fato, os documentos, o escritor “impugna el orden (histórico) estabelecido”. 

Por outro lado, na ausência dos fatos, em meio apenas às interpretações, aí, sim, Jablonka afirma que a ficção pode “resistir à história”: “denunciar a arrogância euforizante dos metarrelatos”. 

Me lembrei imediatamente do empreendimento de Ana Gonçalves ao dar vida à Luiza Mahin em seu Um defeito de cor. Sem escamotear a intensa lista de leituras a que recorreu para escrever a obra, Gonçalves “resiste” à história, já que na visão do pesquisador João José Reis, a suposta mãe de Luiz Gama, é apenas um personagem “misto de realidade possível, ficção abusiva e mito libertário”.

Não será mesmo esse “abuso”, uma espécie de liberdade concedida pela autonomia literária que torna possível manter a tensão produtiva com a história? Há limites “políticos” a essa autonomia? Talvez esse seja o cerne das transformações pelas quais passam nossos campos disciplinares hoje.