Emil Nolde/reprodução
Em tempos de egos que se proclamam revolucionários, a poética contemporânea, atrelada ao modernismo, dispensa pouca atenção à forma, prejudicando seu conteúdo
Giovana Proença
É pesquisadora no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP e membro do conselho editorial da fina
Para falar da poesia contemporânea independente, a poesia que vem tomando principalmente as redes sociais desde 2015, é preciso rebobinar a fita, e voltar para o início dessa história. No princípio: era o verso. Deles, nossos primeiros modernistas. Na esteira da Semana de 1922, marco que dispensa comentários, esses homens – vale marcar o predomínio masculino do momento literário, em consonância com o forte patriarcado da primeira metade do século XX, sem, contudo, apagar figuras centrais como a incendiária Pagu – valeram-se dos ares inovadores que tomaram as outras artes, e, sem eufemismos, revolucionaram a arte poética. Cem anos depois, entretanto, há muitos aspirantes a pseudo-revolucionário-poeta, e poucos poetas revolucionários.
Primeiro, temos uma dupla paulista, os Andrades. Mário lança a sua Paulicéia Desvairada justamente no fatídico ano de 1922, de modo que o livro já nasceu como um marco da estética modernista. Oswald colocou os termos em manifesto, com o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Ambos eram comprometidos com o que Mário, vinte anos depois da Semana de Arte Moderna, definia como um espírito novo a ser criado, com “a reverificação e a remodelação da inteligência nacional”. Acompanhando a modernização que chegava ao Brasil do século XX, na metrópole paulista, esse grupo de intelectuais propunha uma renovação do campo poético. Encontraram-na com o espírito antropofágico, por meio da absorção da poesia moderna que vinha da Europa, fósforo riscado por Baudelaire, que captou a agitação da vida moderna. Surge, assim, um dos maiores trunfos culturais brasileiros, a mescla entre cosmopolitismo e localismo ou entre vanguardismo e primitivismo.
Vieram ainda o alumbramento de Bandeira, a pedra no caminho de Drummond e a vida severina de João Cabral. Todos responsáveis por renovar a poesia brasileira em seus anos áureos. Vale lembrar que estamos diante de um período de intensas transformações na vida sociopolítica, de forma que a literatura acompanha os movimentos da sociedade e da cultura do país. Entre a modernização, os ecos da guerra e o governo Vargas, nossas melhores vozes produziram o crepuscular, o verso duro como ferrovia mineira, e a rima dos esquecidos.
Então, com a passagem do tempo, o obscurantismo. Esperanças em reformas de base e um Brasil mais igualitário se frustram com a deposição de Jango, o João Goulart. O resto é história de chumbo. Após os sons e cores da Tropicália, o Brasil se encontra no que Zuenir Ventura chamou de “vazio cultural”. Mas, nem tudo estava perdido. Em meio às turbulências dos anos mais repressivos da Ditadura Militar, a Poesia Marginal – ou Geração Marginal ou Geração Mimeógrafo – se compõe. Os grandes nomes dessa contracultura nacional ressoam até agora em nossos ouvidos: Francisco Alvim, Chacal, Cacaso e, com um destaque de favoritismo pessoal, ela: Ana Cristina Cesar.
O que chama a atenção tanto nos Modernistas de 1922 quanto nos Marginais de 1970 é a atenção à forma, associada ao social, com forte vínculo aos movimentos da cultura em que os poetas e os versos estão inseridos. O formalismo experimental da poesia de 1970 desafiou instituições literárias e as estruturas rígidas do verso, anteriormente abaladas pelos primeiros modernistas. O desmantelamento das tradições líricas ecoa nos Marginais em fórmulas como o poema-piada oswaldiano e a politização do cotidiano, em um momento em que se posicionar podia ser mortal.
A geração de 1970 triunfa com a dupla transfiguração do cotidiano e da atmosfera cultural e política, postos em formas inéditas em nossa poesia – as cartas e diários transfigurados de Ana C., o poema aforismo de Cacaso. Essas foram as respostas de uma geração limitada pela violência e a repressão. Longe de fantasmas parnasianos, o espectro a ser derrotado pelos poetas de 1922, os poetas de 1970 inovam a missão dos antecessores, em uma curiosa mistura de continuidade e ruptura. Nisso, esses marginais são inovadores. Eles sabiam que inimigos já haviam sido derrotados pela geração que veio antes. Nisso, pecam os nossos versificadores de 2014-2021.
O que chama a atenção nos poetas de #hoje, é a pouca atenção dispensada à forma. O social se faz presente, temas como o feminismo, as pautas raciais e LGBT estão (felizmente!) cada vez mais presentes em nossa poesia contemporânea. Contudo, há ainda o uso de formas, e versos já saturados em movimentos anteriores e que não mais contemplam a experiência lírica atual. Ora, forma é importante. Para Adorno, ela é o conteúdo sócio-histórico depurado. No ensaio “Anotações de uma aluna”, incluído no volume Antonio Candido 100 anos, a professora Adélia Bezerra de Menezes reflete sobre os ensinamentos de nosso maior crítico literário, do qual foi aluna. Para Candido, segundo ela, “o conteúdo só atua por causa da forma, é a forma que traz, virtualmente, a capacidade de humanização.”
Para que a importante mensagem de nossos versificadores possa ecoar, é necessário atenção à forma. A poesia se difunde nos stories de Instagram, carácteres de Twitter, revistas literárias, autores independentes que usam de financiamentos coletivos para continuar sua produção etc. Contudo, até onde vai o conteúdo com a forma limitada? A poesia concreta, há muito, já perdeu o caráter inovador. Versos entrecortados são apenas versos entrecortados. Até onde toca essa poesia e até onde ela alcança antes de ser esquecida?
As inovações de 1922 foram há cem anos, de modo que hoje já soa estranho chamá-las inovações. O verso livre é nossa tradição. Estranho também é chamar a geração de 1970 de marginal, visto a popularidade que gozam nos circuitos literários. A incompreendida Hilda Hilst, peça singular e outrora incompreendida de nosso modernismo, já goza de seu reconhecimento, enquanto muitas – e muitos – poetas continuam insistindo nos moldes Hilst, que eram inovadores em Hilst, ou em Ana C. ou Cacaso ou Leminski, justamente porque esses autores romperam com os padrões vigentes de poesia.
Há esperança. Desde meados de 2015, tempos que o Brasil e o mundo começaram a flertar com rastros do neofascismo, observamos uma onda de temas poéticos que celebram a resistência, com maior ênfase com os chamados poetas independentes ou seja, fora dos eixos das grandes editoras, de modo que grupos minoritários tornaram-se eu-líricos de suas experiências. É possível afirmar que o destaque da poesia é todo delAs. Estamos deixando o rótulo de “poetisa” – algo como poeta menor – para trás.
Encerrei um artigo de 2020, de título “Versos da Mudança”, com o seguinte parágrafo “A questão da literatura brasileira de hoje é sobre ter voz. Os poetas marginais tem se feito escutar, não mais como personagens retratados, mas como narradores e eu-líricos. A nova geração usa das inovações propostas e da desconstrução de moldes tradicionais, para fugir ao academicismo rígido da literatura, e criar uma poética de vivência e universalidade. Assistimos os caminhos mais plurais da literatura brasileira, versos de conquista do espaço para novas vozes se manifestarem na poesia.” À essas palavras, contudo, adiciono o questionamento: não seria mais potente usar novas formas, e não das “inovações propostas [há cem ou cinquenta anos atrás]”?
Se no plano do conteúdo, vemos tantos avanços, é impossível não se perguntar: por que não na forma? Enquanto assistimos os bons frutos do romance brasileiro – é só checar a lista de indicados ao Jabuti de 2020, vencido pelo ótimo Torto Arado – nossa poesia alternativa parece estar engessada entre inovações que, paradoxalmente, estão para completar o centenário; e formas experimentais que vem sido experimentadas pelos últimos cinquenta anos. Vale lembrar: não estamos nem diante de inovadores de um novo 1922, nem dos marginais alternativos de 1970. Conteúdo social se perde sem a forma para torná-lo inteligível. Como resultado, vemos a profusão de manifestos em forma de versos – ou frases cortadas pela tecla Enter. E mesmo para manifesto, é difícil conquistar a elegância apaixonada de um Oswald de Andrade.