Quando o verde se mostrava
entre os verdes, em busca de Guillelmo Velez
E de verde se vestiu a madrugada. E a estrada era o verde
e era a entrada por onde o verde corria por fora da estrada.
Então o verde cansou-se e mudou-se de amarelo como farpela
que enrodilha o diário com o medo de se transformar em contrário.
E já não havia verde - o magenta magoou-se no lápis de pastel:
estava a sanguínea na pausa do tempo e não havia tempo,
nem amarelo, nem magenta. Apenas a madrugada cantava
e o verde voltava à madrugada. E já não era silêncio.
E já não era amanhã. E já não era o vício de cruzar as pernas,
de se oferecer como pélvis ao sacrifício de uma cama manchada:
e o verde descansava de ser verde. Era árvore. Era parede.
Era pénis entre as tetas do tempo. Era o verde que penetrava
por orifícios onde o som refulgia. E era memória. E era dia.
E era ouro quando o cacau mergulhava por dentro da estrada
à entrada da noite. E já não era silêncio: era amanhã, o corpo
aberto em grito de infinito. E o ouro era verde como um suicídio,
mas a corda quebrava, a noite quebrava, o verde cobrava o vento
que se desfazia em tempo, que se desfazia em água. E inundava
a estrada que era verde porque a vida era verde. Era verde e cantava.
Carta de saudade ao amigo Fernando Pessoa
meu caro fernando: ainda me lembro
do charro que bailámos no atelier
- arrastavas-te com o pesado arreganho dos cartazes
e a minha mente era tômbola até eu dizer
nunca mais. eu tinha o entusiasmo das verduras
mergulhado na tabacaria mas recusei
atirar-me da janela como vítor fez
quando te descobriu (deixou recado: já não há
mais nada para dizer). entretanto passaram
oceanos e os dias incharam de velhice
(confesso, álvaro: estou velho) mas continuei
pronto para viver olhando o mundo
embora incapaz de fazer o pino: e vieram
outros amigos (o tzara, o apollinaire,
o manuel maria, o drummond, o craveirinha, o vário)
que por aqui passaram
e agora confraternizam contigo
no lugar das coisas
- suponho que não desistiram de escrever poesia
(os poetas nunca desistem). quando eu aí chegar
quero ler esses poemas e escrever convosco
um cadáver esquisito. daqui levar-te-ei chocolates
para adoçar as bocas amargosas das vergonhas
com a metafísica da esperança e contar-te-ei
como os teus direitos autorais enricaram
familiares que te chamavam pobre diabo
e nunca te leram antes de saberem
que as gerações te amavam. depois leram-te
e fingiram perceber.
ah, fernando: rir-te-ás deste mundo.
Nuno Rebocho é escritor e jornalista. Apesar de ter nascido em Queluz, em 1945, viveu toda a sua juventude em Moçambique. Tem muitos livros publicados de poesia, crónica e investigação histórica, estando presente em diversas colectâneas e antologias publicadas em Portugal, Espanha e Brasil. É chefe de redacção da Informação da RDP-Antena 2.

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