Ilustração de Ligia Zylbersztejn
Por que não devolvemos os livros que pegamos emprestados?
Sibélia Zanon*
Hoje foi um dia importante. Eu me desfiz de uma borracha com cara de sheepdog que nunca usei – porque era bonita demais – e que me acompanha desde que eu tinha uns anos alegrinhos de idade.
Na verdade, a borracha morava na minha caixa das borrachas incríveis, coletânea que minha irmã foi enviando por correio em envelopes gordos durante o ano em que morou fora. Eu — no alto dos meus 6 anos de idade — ainda não pensava em me jogar em experiências no exterior, mas tinha grande apreço por itens de papelaria.
Tenho revisitado e organizado alguns objetos – porque dizem que assim as ideias também se organizam melhor. Quero desapegar daquilo que não é significativo — alguns objetos nunca chegaram mesmo a ser. Outros, como a borracha do sheepdog, foram bem importantes.
Eu devia ter tirado uma foto da minha caixa de borrachas incríveis para ilustrar essa crônica, mas quando dei de presente as minhas borrachas, há umas 3 horas, eu ainda não sabia que as imortalizaria aqui nessas linhas.
Há algumas semanas foi a vez de revisitar os livros. Desapeguei de umas cinco caixas. Alguns eu tinha lido e estavam cheios de grifos e anotações adolescentes, alguns eu tinha pegado no brechó de livros da minha irmã, alguns eu tinha lido só em parte e não gostado, outros eu tinha lido inteiros e não gostado, uma pilha eu nunca tinha folheado e nem pretendia mais.

Uns dias depois eu viajei e fiquei nervosa achando que tinha doado pro sebo um livro que eu ainda precisaria e que ia me inspirar na escrita de um texto, que está atrasado. Quando voltei, descobri o livro ainda na prateleira. Que alívio! O livro continua comigo e o texto continua atrasado.
Ainda mora na prateleira uma fila grande de livros para serem amados ou nem tanto. Títulos que um dia terão significado. Títulos que alguém disse serem imprescindíveis. Como qualquer humano diante dessas prateleiras instigantes, sinto desejo de consumo e medo da minha própria ignorância. Borges me olha e já me sinto órfã de alguma enciclopédia que, num abraço de mãe, me ilumine com uma explicação simples para todas as suas referências.
Mas, quando vejo na prateleira A grande fábrica de palavras, de Agnès de Lestrade – amo livros ilustrados (me diga, eles são infantis?) —, sou tomada pela esperança de que um dia terei tempo, interno também, para abrigar tantas novas palavras e ideias. Porque livro não é só questão de Chronos, o tempo do relógio, mas também de Kairós, o tempo da disponibilidade interior.
Às vezes, Kairós me cutuca e sinto muito desejo de ficar um mês sem nenhuma ocupação compulsória. Nenhuma mesmo. Ficar só lendo – os livros e a vida. Obviamente, isso só funcionaria fora de casa porque a casa fica batendo na minha porta como se eu tivesse a obrigação de abrir sempre que ela quiser.
— Me arruma, me ama, pensa em mim, me faz ninho!
— Ô, criatura dependente! – Resmungo de volta.
Passeando pela prateleira, acho um livro que não me pertence. Peguei emprestado e não devolvi. Sei de quem é e pretendo devolver. (Viu, Michele?) Não quero mandar por correio, porque quero o sorriso e a voz.
Alguns livros meus estão perdidos em mãos alheias também. Por que não devolvemos os livros que pegamos emprestados? Será que nunca lemos, mas criamos apego, como se aquele livro materializasse nossas necessidades máximas do amanhã? Igual à minha borracha do sheepdog — nunca usada, sempre presente? Pronta para apagar algum capítulo equivocado da vida e para me lembrar da criatura de 6 anos que ainda posso ser?

*É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta