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«feita por gente crente noutra madrugada»
A mais recente série da RTP pretendia contar seis histórias «cuja cronologia decorre entre a noite de 24 e a manhã de 26 de abril de 1974»
canção de embalar
O primeiro episódio foca-se no jovem Manuel, de 19 anos, estagiário do Rádio Clube Português. Quando o pai, militar colocado em Santarém, liga para casa e os informa para não saírem, no dia seguinte, o protagonista compreende que algo está para acontecer e não quer perder o momento.
O seu sonho é apenas um e está muito perto. Assim, depois da mãe e do irmão adormecerem, vai até à rádio buscar os materiais necessários para uma eventual reportagem. Enquanto reúne o que precisa, «um grupo de oficiais toma o controlo do RCP» e Manuel vê-se «sequestrado pelos homens que vêm trazer a liberdade».
Senti que este episódio era feito de vários contrastes: o clima de incerteza a oscilar com a convicção da mudança, a emoção de registar a liberdade a ser pautada por alguns períodos de instabilidade e medo, a sensação de vitória que, de um ponto de vista particular, não deixa de expor a angústia de uma mãe que não sabe do filho. Acabou-se o medo e a cidade grita liberdade, e eu dei por mim comovida pela força destes testemunhos, porque foi necessária uma coragem acrescida para combater.
lembra-me um sonho lindo
No início do Cerco ao Quartel do Carmo, dois soldados - João e Francisco - na posição de atiradores furtivos são surpreendidos por uma velhota que convida um deles a subir. Antes de avançar, importa esclarecer que um dos soldados é branco e o outro negro, porque a cor da pele terá, uma vez mais, peso na forma de tratamento.
João acaba por ir até à casa de Eulália e Francisco aguenta as investidas da população, que sabe tão pouco como eles sobre o que esperar daquele momento. Neste ponto da narrativa, Eulália tenta fazer a cabeça de João contra «os devaneios revolucionários, louvando as conquistas de Salazar», enquanto a neta Teresa, no meio da confusão, vai-se interessando por Francisco. É evidente a desinformação, as incertezas e os nervos que se apoderam das pessoas. Ninguém está certo do futuro, mas há uma grande vontade de gritar liberdade e esse murmúrio ecoa para lá de qualquer ponta de medo.
Este segundo episódio foca-se nos sonhos e naquilo que fazemos por um bem maior, mas também no racismo e na humilhação que se tenta camuflar através do argumento «era uma piada». Sempre com uma dose de humor, fica claro que a revolução teve várias faces e que foi vivida de maneiras distintas pelos portugueses. Além disso, achei curiosa a forma como Lembra-me Um Sonho Lindo se interligou com Canção de Embalar.
No final, ouvimos testemunhos de Irene Flunser Pimentel, José Martins, Alice Fernandes e Diana Andringa. E foi Diana Andringa que disse uma das frases que mais me marcou e que parafraseio: tirar os olhos do chão e olhar os outros como iguais.
inquietação
Armínio tem 30 anos e é um dos GNR colocados no Quartel do Carmo. Na noite de 24 para 25 de abril recebe um telegrama a informá-lo que o irmão, em combate na Guiné, tinha falecido. Portanto, a sua única preocupação é pedir autorização para ir a casa ver o estado da mãe. Face à situação envolvente, o pedido de dispensa é recusado e é a partir daqui que Armínio tenta abandonar o seu posto, juntando-se à luta no exterior.
O ambiente caótico e claustrofóbico, sentido pelos dois pontos da narrativa deste episódio, é desarmante: por um lado, compreende-se a inutilidade de tudo aquilo e o quanto é fácil «lutar» dentro de portas, escondidos que nem ratos, enquanto são os outros a correr riscos desnecessários, e, por outro, a insensibilidade de impedir que alguém possa fazer o seu luto por um suposto bem maior. Que mundo é este?
Confesso que Inquietação me tocou mais por ter perdido um familiar muito próximo, recentemente. Ao ver a angústia do protagonista, mesmo sabendo que já nada pode ser feito, imaginei-me no seu lugar e no quanto ficaria destruída por não poder estar perto das minhas pessoas neste momento de despedida. Além disso, fez-me regressar às perguntas que me acompanharam durante a semana: como é que o mundo pode continuar em movimento, quando estamos desfeitos por dentro? Como é que pode haver tanto alarido, quando a única coisa que queremos é que se faça silêncio? De repente, é como se assistimos às coisas de fora do corpo, porque estamos dormentes.
Com testemunhos dos coronéis Nuno Andrade e Nuno Santos Silva e da historiadora Irene Flunser Pimentel, também fica esta questão: estaremos todos do mesmo lado?
a morte saiu à rua
Catarina é uma mulher de 33 anos e militante ativa do PCTP-MRPP. Em final de gestação e com o companheiro a definhar em Caxias, sem saber que será pai, também terá de lidar com o facto de ter sido posta de parte do partido por estar grávida.
No rosto da protagonista vemos a determinação e a urgência para lutar por um mundo diferente para o filho. Não sei se esta Catarina foi «feita por gente crente noutra madrugada», mas ela «queria mais» e, por isso mesmo, fez tudo aquilo que estava ao seu alcance para manter a missão em movimento. E lutou até deixar de ser possível.
Sinto que havia, em simultâneo, uma grande vontade de provar que continuava a ser uma operacional útil. E essa postura, inevitavelmente, trazia-lhe riscos. Para si e para o bebé. Trazia uma noção de futuro turva e demasiadas questões. Além disso, trazia-lhe uma certeza: a certeza de nos orientarmos consoante as nossas crenças e regras. Quem teria razão? Haveria um lado certo? Teria de haver, porque tornou-se insustentável viver com medo, sempre a olhar por cima do ombro e silenciados.
Neste episódio, fiquei presa a duas das suas camadas: à desigualdade de género - e permitam-me fazer um parênteses para a forma mordaz e inteligente como essa crítica foi construída - e à tortura. A PIDE não estava disposta a desistir e Catarina sofreu às suas mãos. Esta realidade não é uma novidade, tendo em conta a história do nosso passado, mas não deixa de ser surpreendente ver como as coisas eram processadas, ver a dimensão da maldade e da falta de integridade moral; não deixa de ser surpreendente ver como cada comportamento era meticuloso e estruturado de modo a que não ficassem marcas ou que fosse difícil prová-las. Perceber que seres humanos estavam (e estão) dispostos a infligir aquele tipo de dor a um igual é revoltante. Enquanto mulher, numa sociedade onde é tão difícil sê-lo, ver uma figura feminina num cargo com algum poder a diminuir outra mulher é ainda mais aflitivo.
Com testemunhos de Aurora Rodrigues, Irene Flunser Pimentel, Diana Andringa, José Martins e António Costa Santos, A Morte Saiu à Rua mostra-nos a importância e o impacto das nossas decisões. Mostra-nos aquilo que estamos dispostos a fazer para proteger os nossos - que caminham lado a lado ou que estão por nascer. Mostra-nos que as nossas crenças nem sempre nos dividem e, já na reta final, deixou-me a pensar que é curioso lutar pela liberdade e, depois, perceber-se que se tem medo dela.
trova do vento que passa
César é um cantautor conhecido, exilado em Paris, e um dos «mais celebrados pela oposição», até porque a sua música é de intervenção. Tendo conhecimento do que se passa em Portugal, pretende regressar e aliar-se à luta, embora Maria, a sua namorada, discorde da decisão, talvez por não compreender a sua necessidade de estar perto.
A viagem, para além de perigosa, torna César um alvo fácil para a PIDE, mas isso não o demove. Primeiro, porque acredita que é ali que tem de estar e, segundo, porque precisa de criar perto dos amigos portugueses. Ademais, quer sentir-se útil. A ideia de cada um lutar como pode é ampliada e esta é a sua maneira de contribuir para a causa.
A música é, sem qualquer dúvida, a protagonista deste episódio, pela sua importância a unir pessoas e por ter sido um marco no dia mais bonito da nossa história, o 25 de abril. É impressionante como as palavras são o impulso que tantas vezes precisamos para, enquanto sociedade, entrelaçarmos valores e não permitirmos que nos silenciem. Muitos correm atrás do sonho que é viver da música, outros, sem que o planeassem, veem as suas canções a serem utilizadas como senha de mudança. Seja qual for o rumo que esta estrada leve, a música tem uma força impossível de ignorar.
Por outro lado, creio que Trova do Vento que Passa nos deixa a refletir sobre a capacidade de ceder e de estar ao lado das nossas pessoas, mesmo quando não partilhamos da sua visão. Até que ponto é que é simples fazê-lo? Será que em algum momento usaremos essa cedência como arma de arremesso? Quanta mágoa/revolta caberá nessa decisão? Fui colocando estas questões enquanto via as cenas entre o César e a Maria, porque também eles se vão confrontando com pensamentos a orbitar nesse plano. Por vezes, mudamos toda a nossa vida para caber nas ambições do outro; por vezes, queremos tanto fazer parte de algo maior, que não deixamos margem para que a outra pessoa queira fazer um caminho diferente. Mais cedo ou mais tarde, acredito que tudo isso pesará, porque compreenderão em que lado querem ficar.
O mais impressionante, para mim, é ver como é que estes pólos narrativos se cruzam. E como, no fundo, são todos motivados pela mesma matriz: a liberdade. Com testemunhos de Diana Andringa, Júlio Pereira, Sérgio Godinho, José Martins, Irene Flunser Pimentel, António Costa Santos, Isabel Moreira, Alice Fernandes e Aurora Rodrigues, fica claro que todos nós temos uma música que associamos a Abril.
a madrugada que eu esperava
Os cravos, erguidos, saíram à rua. Porque esta era a madrugava que esperávamos.
No último episódio da série, conhecemos a perspetiva de Teotónio: estudante de Direito e um dos primeiros cidadãos a chegar à António Maria Cardoso, «onde a PIDE-DGS levanta barricadas e decide resistir». Com um olhar no presente, vamos, primeiro, recuar ao passado e compreender o horror que antecedeu a liberdade.
A sede da polícia política foi cercada pela multidão e, embora o regime tenha caído às 21h, a PIDE recusa-se a seguir as mesmas pisadas. Descontrolada, abre fogo, o que não só provoca um caos generalizado, como também culmina na morte de quatro pessoas, contabilizando-se 45 feridos. Na tentativa de controlar os danos de uma derrota cada vez mais evidente, só potenciam ainda mais a revolta da população.
Instalada a confusão, Teotónio tem um encontro que colocará em causa todos os seus valores. Ao reconhecer o agente PIDE que «atirou a matar sobre estudantes antirregime», no ano anterior, e que impediu «o funeral condigno de um colega assassinado», terá duas opções: deixar que a vontade de vingança o consuma, transformando-o no monstro que despreza, ou permitir que Cabral vá embora, levando consigo a raiva, o ódio e os traumas que ficaram a ecoar dentro de si.
Foi impressionante acompanhar o descontrolo do protagonista, porque corrobora o quanto situações extremas conseguem tentar as pessoas mais integras, cegando-as, movendo-as por um falacioso sentido de justiça, que apenas as coloca em causa a elas, comprometendo a sua honra. Além do mais, convida-nos a refletir sobre o quanto é ténue a linha que separa o «cumprir ordens» de uma filosofia/crença enraizada, que segrega, que subsiste pela cultura do medo, que não olha a meios para atingir os fins.
Com testemunhos de Irene Flunser Pimentel, Maria José Morgado, António Costa Santos, Aurora Rodrigues, Alice Fernandes e Isabel Moreira, comovi-me muito com o final: pela mensagem implícita, por ver o povo unido, por «emergimos da noite e do silêncio/E livres habita[r]mos a substância do tempo» e, claro, por ser imperativo continuarmos a lutar por abril, pelas pessoas, pela nossa liberdade. Sempre!
