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Jun24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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... Assim, decerto, era mais bonito, mais trovadoresco pelo menos. A mula que é costume alugar na nossa terra, com um arrieiro à frente de pau argolado, e lenço em triângulo para as costas contra o ferrão das moscas, atraídas pela saburra suarenta da pescoceira, bate que bate, mete mais romanesco, mas peca por prosaica. E as sensações daquela hora cristalizaram na canção, de que derivam o argumento máximo quanto à estada de Camões em Coimbra e aos amores que ali tomou:

Vão as serenas águas 

    Do Mondego descendo,

    Tão mansamente que até ao mar não param,

    Por onde minhas mágoas,

    Pouco a pouco crescendo, 

    Para nunca acabar se começaram.

    Ali se me ajuntaram 

    Neste lugar ameno --

    -- Aonde agora mouro --

    Testa de neve e ouro, 

    Riso brando e suave, olhar sereno,

    Um gesto delicado 

    Que sempre na alma me estará pintado.

           Nesta florida terra,

    Leda, fresca e serena,

    Ledo e contente para mi vivia:

    Em paz com minha guerra, 

    Contente com a pena

    Que de tão belos olhos procedia,

    ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 

    ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 

    ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 

    Como à que me condena:

    Que mais sentirei vosso sentimento

    Que o que a minha alma sente.

    Moura eu, senhora, e vós ficai contente!

    Canção, tu estarás 

    Aqui acompanhando

    Estes campos e estas claras águas;

    E por mim ficarás 

    Chorando e suspirando,

    E ao mundo mostrando tantas mágoas,

    Que de tão larga história 

    Minhas lágrimas fiquem por memória.» ...

(continua)

publicado às 18:32