Sempé/divulgação Amigos de longa data, a fábula sobre o andarilho alemão é um dos muitos trabalhos feitos em parceria entre o prosador alemão e o desenhista francês Matheus Lopes Quirino O andarilho segue seu caminho, casmurro e obstinado. São quilómetros percorridos dia a dia, noite adentro, sem pernoitar, às vezes, atravessando colinas, morros, estradas, longas planícies e florestas. Notável por meter o pé na estrada, o solitário senhor Sommer é uma lenda nos vilarejos de Cima e de Baixo, despertando nos habitantes uma curiosidade capaz de personificar o senhor Sommer quase como uma aparição fantástica. Quem o observa, também, é um jovenzinho que adora subir em árvores. Garoto espoleta e filho caçula, o menino é um cabeça de vento, não apenas porque vive no topo das árvores, mas por aspirar grandes coisas em tão tenra idade. São sonhos grandiloquentes e filosóficos, que contrastam com o tamanho do miúdo, como se diz criança em Portugal, embora o livro A História do Senhor Sommer seja um clássico alemão. No senhor Sommer o menino concentra suas atenções e confere a ele uma originalidade brotada de seu comportamento retirante e excêntrico. Um velhote encapotado que sai pelos caminhos dos vilarejos munido de um cajado. Enquanto o menino projeta no senhor Sommer admiração, pois é ele o motivo de conversa de muitos habitantes do vilarejo, o velhote em si não tem ideia da reputação. É casado, mas está sempre no trecho, procurando não se sabe o quê. Os julgamentos e normas sociais irritam o pequeno protagonista. Afinal, é ele uma pequena pessoa a seguir normas, convenções, horários, hábitos, regras, e o senhor Sommer? Livre como um pássaro para não medir errâncias no mundo. Na fábula de Patrick Süskind, prosador alemão que tem o trabalho marcado pela filosofia de seus personagens, o menino tem de lidar com os primeiros perrengues da vida, como a desilusão amorosa, os dilemas da amizade e o esforço para tocar bem piano. Prodígio em números e na imaginação, os hábitos estritos e rígidos da família alemã tradicional se chocam com o burlesco senhor Sommer. Em dado momento, a depreciação do mancebo atinge tal nível que ele entra em um looping de angústia. Mas observa, alude, para, processa e volta à consciência, ponderando sobre questões importantes como o companheirismo, o suicídio e a vida. Clássico de Süskind, a fábula do senhor Sommer volta em edição caprichada pela editora 34, com as ilustrações de Jean-Jacques Sempé, célebre cartunista francês que se notabilizou por seus quadrinhos delicados e profundos, retratando a vida urbana e as suas sensações de forma inteligente. Süskind e Sempé são velhos amigos, o livro é apenas mais um dos trabalhos da dupla. À primeira vista ingênuo, a obra ganha força em leituras seguintes e complementares, o traço infante de Sempé transporta a prosa de Süskind para uma dimensão filosofia e idílica, regressando com o leitor à infância, aos tantos dilemas vividos e as primeiras vezes de cada um. Sob o romance de formação, gênero tradicional da literatura alemã, Süskind espelha a própria vida através de passeios de bicicleta, amores de infância e arquétipos de figurões que encontramos na meninice e, para todo sempre, seguirão conosco pela formação de caráter, até a hora da morte. A história do senhor Sommer Patrick SüskindTradução de Samuel Titan Jr.Ilustrações de Sempé96 pp.2021 – 1a edição Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino