"Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil"
Literatura de viagens, História do Brasil, Descobrimentos portugueses, Pêro Vaz de Caminha, Renascimento
Cristóvão Colombo em 1492 leva as embarcações espanholas até ao território que passaria a ser conhecido como o "Novo mundo." Estávamos em pleno Renascimento, onde novas formas de expressão são encontradas, entre elas, a "literatura de viagens" - onde esta carta se inclui - e que não é mais do que guias náuticos ou diários de bordo, elaborados por um grupo que quer detalhar as dimensões da Terra, os monstros horríveis que vão enfrentando, as criaturas nunca vistas que vão sendo desvendadas e as lendas de cidades fantásticas. Estes relatos vão ajudar a desenvolver áreas do conhecimento como a história natural, a geografia, a astronomia e a antropologia. A "Carta" remetida por Pêro Vaz de Caminha a Dº. Manuel, é disso um bom exemplo. Escrita a 1 de Maio de 1500 em Porto Seguro, no Brasil, é a primeira notícia de um país e de um povo até então desconhecidos. Na sua versão original, encontra-se guardada na "Torre do Tombo e integra o registo da Memória do Mundo da Unesco desde 29 de Julho de 2005." Nesta carta, é relatada a "chegada dos navios comandados por Pedro Álvares Cabral ao novo continente," ou seja, sobre o "achamento" daquele que só se saberia depois ser o Brasil - e não a Índia, como estava planeado - com grande rigor, conhecimento e domínio sobre a língua, pelo facto de ser um cronista e não um homem do mar. Mostra a "sabedoria do humanista," uma "nova aptidão de apurado observador, com o fino talento de escritor," numa elaborada "crónica de grande qualidade descritiva," que visa informar "o rei sobre a exuberância e o exotismo do novo mundo e sobre a fisionomia dos nativos." No entanto, Pêro Vaz, o escrivão desatacado para elaborar esta missiva, começa desde logo por esclarecer que o que pretende fazer é uma descrição factual sem artimanhas de embelezamento e que não se irá reter em aspetos ligados à navegação propriamente dita. A expedição parte de Belém a nove de março. A pilotar a nau onde segue Pêro Vaz vai Pêro Escobar e, na carta, é dado conta da perda de uma nau - a de Vasco Ataíde, a 23 de março. Segue-se então a descrição, quase que exaustiva da chegada dos portugueses a um novo território, a que chamam de "Vera Cruz" e do primeiro encontro com os "homens que andavam pela praia", "pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas." Durante o seu discurso, é explicado que no dia 24 de abril são feitos os primeiros prisioneiros, mas que depois são libertados, "dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos", de "bons narizes, bem feitos", acrescentando com pormenor a forma como "traziam os beiços de baixo furados", como são os cabelos "corredios" ou seja, lisos e "rapados até por cima das orelhas." Descreve também a forma como ele e outros (Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho e Aires Correia) os recebem junto com o capitão do barc e como comunicam com os nativos através de sinais. Explica como surge a sua interpretação de que haveria ouro e prata em terra, "isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos." Depois, descreve como no dia seguinte, o capitão ordenou que ele acompanhasse Nicolau Coelho, Bartolomeu Dias e Afonso Ribeiro, numa ida a terra para observarem como é que os nativos viviam. Começam por fazer trocas de objetos e, falando aqui Pêro Vaz pela primeira vez nas "moças". No domingo de Páscoa, é então erguido um "altar mui bem corregido" e Pêro Vaz explica como é então dita a primeira missa pelo "padre Frei Henrique", perante a "bandeira de Cristo" trazida de Belém. A carta continua então a descrever como é que nos dias seguintes, a terra foi sendo explorada e como foram avançando até encontrarem uma povoação com "nove ou dez casas", todas de "madeira" e cobertas "de palha". Em cada uma dessas casas "se recolhiam trinta ou quarenta pessoas." É nesta relação, nestas primeiras trocas e investigações, que começam a impor aos poucos a sua vontade aos nativos, que os seguem sem maldade, tal como é dito aqui: "Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos...", indiciando um outro motivo da expedição, ou seja, a evangelização. Esta evangelização é justificada como tendo sido mesmo ordenada por Deus: "E pois Nosso Senhor... por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa." Este documento, "chegou a Lisboa semanas depois, a bordo de uma nau que foi mandada regressar a 1 de Maio." Fontes: MARQUES, Carla, SILVA, Inês, "Letras e Companhia, 9º ano", ASA; https://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2010/11/Carta-de-Pero-Vaz-de-Caminha-transcricao.pdf https://ensina.rtp.pt/artigo/pero-vaz-de-caminha-um-novo-mundo-para-o-mundo/
Texto originalmente publicado em Elsa Filipe