A autora Marguerite Duras (reprodução)

Reedição de O Amante, clássico da literatura francesa, confirma a imortalidade de Marguerite Duras

Matheus Lopes Quirino

Como uma fotografia antiga que se desbota com o tempo, “O Amante”, obra mais conhecida da escritora Marguerite Duras, é uma espécie de álbum de fotografias desbotado. A beleza se encontra justamente na ruína, neste caso, como quando a mãe da narradora aperta os três filhos para fazer economia na hora da foto. Na colônia da Cochinchina, hoje Vietnã, o costume local de fotografar-se perto da hora da morte podia ser metáfora para o último flash, o brilho derradeiro que fica depois da partida rumo ao desconhecido.

A morte espreita, a todo momento parece sedimentar as personagens de Duras. Morrem aos poucos, pobres almas, conforme a inocência se perde pelo caminho. Essa decadência trazida pela família arruinada na colônia, desde seus móveis desgastados ao comportamento arredio, Duras retrata naquele clã que trabalha com imperfeições, a mãe desolada, ao lado do irmão mais velho repleto de vícios, enquanto o mais novo não passa de coadjuvante. Sobra à garota, protagonista, que se contente com um par de sapatos brilhoso e um chapéu panamá de homem. Com os adereços, feito uma anti-Doroty, de O Mágico de OZ, faz com que ela parta para uma aventura, sem tijolos amarelos, que marcará sua vida.

Conforme Duras coloca a corrupção da inocência análoga à fissura do corpo e da alma — que se sedimenta ao longo dos anos, a partir do baque inicial já nas primeiras páginas quando a menina é chamada de prostituta. Ela é categoricamente precoce ao afirmar que “Este rosto de álcool, eu o adquiri antes do álcool.”, narra aos 15 anos. O viço da garota que vai do pensionato ao Liceu é descrito de forma escancarada, tanto quanto a derrocada. Afinal, seu amante é 12 anos mais velho. Marguerite Duras chocou alas conservadoras, mesmo na literatura, quando “O Amante” foi lançado em 1987. Esse confronto com a realidade para uma menina pré-adolescente foi o que alavancou o livro. No meio do caos e dos julgamentos da família, ela encontra o amor, mas um amor impossível.

Ela é uma moça branca, solitária, que começa um affair com um homem mais velho e asiático. Começa a ser mal vista, a princípio pela mãe e o irmão mais velho. De certa forma, o amante parece incomodar mais por ser asiático, ou não branco, do que por se relacionar com a protagonista. Quando leva a família a um restaurante chinês, a exemplo, é desprezado por ser estrangeiro. Abastado, ele a apresenta à dura vida: o racismo da sociedade, o classismo e o descontentamento do pai, que desaprova a relação de ambos.

Não dura mais de três anos a relação com o ricaço chinês. Depois dos baques que sofre com a separação do amante oriental, bem distanciada da colônia da infância, a escritora resolve colocar no papel as memórias, e não sobra nada de idílico do lugar. Ao fazer a analogia das fotos que desbotam com o tempo, a mãe volta como responsável pelo álbum horrendo de fotografias. Nesse momento cheio de pompa, com hora marcada e muito treino, o fotografado precisa ficar imóvel. “Na fotografia ela está bem penteada, sem uma ruga, uma verdadeira pintura”, escreve a autora, que narra a ruína da mãe (em particular, embora toda a família sofra com os vícios do irmão mais velho e a morte do pai) na colônia francesa.

O mundo está contra os protagonistas de Duras. Tudo parece desmoronar. Conforme o sofrimento do amante é escancarado, a menina está anestesiada, tentando processar tudo. Afinal, ela é jovem e sonha em ser escritora, como uma certa senhora Duras.

Tendo publicado no fim da vida, “O Amante” é um livro autobiográfico. “Como pode a inocência desonrar?”, questiona a mãe da menina, quando começa o falatório de que todos os homens do posto estariam de olho nela. “Envelheci. Percebo isso subitamente”, conclui a protagonista. O encontro com o amante é decisório e muda a forma como a garota verá o mundo a partir do encontro e da partida. Na década de 1910, frisa ela, viajar de navio era decisório para a imaginação se espraiar. Duras, que nasceu em um posto francês de Saigon, mesma cidade do romance, narra essa fuga do estrangeiro, mas o retém na memória. Não à toda o livro sai no final da vida.

Já estabelecida em Paris, a escritora, no livro, resolve colocar suas memórias a panos limpos, dimensionando esse amante como primeiro amor e ligando os pontos do quão complexo é ser uma artista em uma sociedade retrógrada. Ela parte para França e, décadas depois, seus fantasmas somem, mas não totalmente. As sombras do passado nunca deixam por completo seus respectivos donos. Basta ver nas fotos antigas, como elas continuam presentes, mesmo com o convalescer e o desbotar das cores.

O Amante

Marguerite Duras

Tusquets

128 páginas – A.E 2020

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino