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Set22

Maria do Rosário Pedreira

Já há muito que os escritores saíram das suas torres de marfim e se sentaram ao lado dos  leitores. Ontem falei das feiras do livro, onde estão a autografar olho no olho de quem os lê; mas podia ter falado de idas a escolas e bibliotecas ou de festivais literários, lugares nos quais o escritor está bem próximo das pessoas, como uma delas, e não como um ser sagrado e distante num pedestal, como acontecia antes. Esta possibilidade de conviver com os nossos autores preferidos, de os ouvir a metro e meio de nós, de lhes poder fazer perguntas, é de facto excelente (estou a pensar que vi e ouvi Herta Müller e Vargas Llosa a conversar a dois passos de mim e que já valeu a pena ser editora e ter ido a Guadalajara só por causa disso). Ao mesmo tempo, este tipo de encontros multiplica-se, e os escritores, sobretudo os mais convidados, têm cada vez menos tempo para escrever, ao mesmo tempo que os organizadores procuram ser originais e, por vezes, metem a pata na poça. O espanhol Sergio del Molino foi convidado para ir a um encontro literário em Itália (bem pago) e, quando chegou, percebeu que teria de acampar com os leitores, dormir com eles na tenda e até (desculpem, mas os espanhóis conseguem ser brutos quando querem) cheirar-lhes os traques... Este tipo de intimidade também podia ser dispensado. O artigo vale mesmo a pena e deixo aqui o link.

https://elpais.com/cultura/2022-08-11/los-festivales-literarios-son-misery-la-experiencia-extrema-de-un-escritor-en-contacto-intimo-con-sus-lectores.html