Na imagem, o Marechal Deodoro da Fonseca (reprodução)
NOTA DO EDITOR Semanalmente, o colunista destaca uma palavra que está subentendida no cotidiano. A coluna se propõe a desbravar o léxico, etimologicamente e, sobretudo, com um olhar filosófico.
O Brasil inventou a varonilidade pela necessidade de inventar o próprio pai. Pelo abandono, pela falta de identificação, por estar à deriva em relação à própria história
Bruno Pernambuco
Varonil
Adjetivo de dois gêneros
[De Varão + il, seg. o padrão erudito] 1. Relativo a, ou próprio de varão, de homem; viril. 2. Forte, rijo; viripotente. 3. Heroico
Nomear, descrever um objeto, ou alguém, ou uma entidade, é inventar-lhe. A imensidão das palavras, da sutileza que carrega um poder tão absoluto, faz com que, contraditória ou logicamente, a descrição mais vaga seja aquela que tem menos contradições — é a que tem menos detalhes, menos sutilezas, menos dimensões do real.
Essas palavras que não são mais que um guarda-chuva de ideias — que não exigem nenhum compromisso excessivo com qualquer significado — como quer que tenham nascido se fizeram bastante convenientes a qualquer entidade com obrigações políticas, questões que impõem o zelo com relação à própria imagem. A criação das identidades nacionais — esse esforço exaustivo, contraditório, quase patético conquanto, na sua limitação de infinitudes, se tromba com a realidade — muitas vezes refletem profundamente desse desejo de ser nada (ou esse desespero em sê-lo), e é difícil pensar em um caso mais claro dessa escolha que o de nosso grande Brasil varonil. Essa definição quase automática, que sai da boca de maneira inofensiva, sem qualquer espanto.
É preciso persistir nesse adjetivo, apesar dele próprio. Ninguém, que se tenha registro na história, terá usado com seriedade esse adjetivo caduco para descrever o que quer que seja, exceto por essa estranha e contraditória imagem, espécie nativa dos louvores do nacionalismo, que é o Brasil Varonil. Ele ainda é reproduzido, multiplicado, copiado — há de se acreditar que alguém o leva a sério. Suas palavras são sinédoque de alguma coisa, seja uma ideia que existe ou que permanece só parcialmente imaginada. A obsessão vem cheia de questionamentos totalmente naturais. O mais importante, talvez (ou o mais urgente em ser respondido): varão de quem, afinal, é esse tal país?
O Brasil inventou a varonilidade pela necessidade de inventar o próprio pai. Pelo abandono, pela falta de identificação, por estar à deriva em relação à própria história, criou-se com mais força, num país mal-ajambrado, a ideia de um filho de todos. O civismo e o patriotismo são especialmente mais intensos numa pátria que não sabe o que de fato é. Basta um meio olhar em sua direção e logo sabemos do que se trata. Cada luta a que se lançam os heroicos cidadãos é uma luta pela honra do pai. Ele está em todos esses chamamentos divinos. Não é preciso conhecer-lhe. Sendo uma sombra é natural ao Brasil uma palavra vazia. O orgulho que resta a quem não sabe nada de si mesmo é o de ser o absolutamente completo, o obediente, o mais altivo, o único, colosso impávido — o Varonil.
Tudo isso não será de tanto ao orgulho a Portugal: se havia no abandono uma expectativa secreta de que o filho um dia, pela raiva e pela humilhação, incorpora mais inteiramente a figura do pai — esse fosse, talvez, o início do Quinto Império, o oculto, espalhando-se por sobre o mundo. Mas, mantendo a tradição do país, esse varão brasileiro quer pegar a xepa de uma certa herança francesa — busca dessa tradição familiar inventada um civismo, um patriarcalismo e um nacionalismo brutos e objetivos, retilíneos, progressistas, e sem um excesso de opiniões que possa confundir a mensagem. Não à toa esse país varonil se enxergou na imagem de Auguste Comte — esse país que não consegue se ver por mais que um disciplinarismo catedrático. Ao pior dessa tradição positivista o país concedendo sua honra máxima — a mensagem do estandarte; se poderia dizer, a sua própria nomeação. Não há espaço para amor no nome que esse país se dá. O olhar do filho bom, justo — o varonil — é sempre limitado por rédeas. É incapaz de perceber curvas, alterações, ou gradações da terra. Uma reta perfeitamente aplainada é o único caminho visível à sua frente, não importa que imperfeições, declives, corpos d’água ela necessite ter soterrado.
D. Sebastião não é o messias que o varonilismo brasileiro escolheu para se afirmar. A mensagem não foi entregue. A mensagem só pôde ser escrita por não poder ser entregue. O império do Oculto — tão mais elevado que a fusca luz francesa, tão mais completo que os conquistadores do mar ingleses — não tem lugar para a terra que um dia foi o paraíso. Desprovido de sua humanidade pelos séculos de administração colonial, um país, para chamar-se varonil, tem de inventar para si uma desumanização mais completa. Necessita de uma racionalidade pura, completa. Capaz de atravessar todos os poros do ser. O Brasil Varonil não admite mitologia que não a da sua própria grandeza onipotente e seus amplos porões, cheios de histórias de náufragos e torturados .
Essa ferida quieta, fossilizada, do pai desperta no Brasil aquilo que desperta em todas as nações — a vontade quase obsessiva de vender o contrário daquilo que se é. É assim que uma terra molhada, diversa, fluida, porosa — e, mesmo em sua porção masculina, construída, em tudo que tem de valor, pelos filhos bastardos — passa a caber numa palavra que não diz nada, que nunca foi proferida por qualquer boca, que nunca descreveu absolutamente nenhum objeto, nenhuma entidade, nenhuma alma viva ou morta, presente ou passada, e que não projeta nenhum futuro a não ser a repetição de uma nostalgia, em síncope, daquilo que nunca aconteceu, mas que como sombra habita arduamente a história de todos. O herói é sempre vazio, e só é destino de gente a quem nada cabe na vida.
Esta pequena sessão de terapia familiar certamente traz um avanço — “Muito bem, Brasil. Esse é um ótimo começo, anote o que a gente conversou e nos vemos na semana que vem”, poderíamos dizer, se ele tivesse algum interesse em tratar dessa ferida asséptica — mas ela pode lidar só com a superfície dos fatos. Há de se considerar que esse impropério descritivo não seja invenção da cultura, mas um ato de vontade autônoma da própria língua. Tanto se faria bastante evidente na escolha repetida de uma palavra vazia, que não tem função nenhuma a não ser para uma excelente poesia de sétima série — com direito inclusive, a rimas ricas:
Oh, meu Brasil Varonil
Titã, de belezas mil.
Deste povo, mãe gentil.
E daí por diante, respingando canalhices no pobre leitor. O poema se escreve sozinho. O verdadeiro milagre da língua é do il, não do ão.
Il é, afinal, a capacidade de descrever qualquer lugar, qualquer origem, qualquer atribuição. É um sufixo que basta para dizer todas as palavras ao mesmo tempo. O nome de um país incluído na sua rima constrói o antônimo de uma pátria. É um lugar definido por outro lugar que estará sempre buscando. O poema do il poderia ser uma entidade mística, infindável, escrita desde o começo dos tempos e que até depois da extinção continuará acrescentando, em versos cabalísticos de sete sílabas, adjetivos a sua descrição.
A astúcia do idioma é incomparável. Já que não somos mais que servos seus, que ele tem um domínio completo dos meios de expressão, mesmo daquilo que é mais fundamental para nossa existência, não nos cabe mais que perceber (e quiçá com isso se espantar) ela acontecendo por meio de nós. Sua invenção não escolhe beleza, elaboração nem complexidade dos termos. Acontece numa palavra tão oca que qualquer significado lhe cabe. Tão branda que ninguém pode lhe contestar com muita paixão.
Existindo ou não existindo, esse Brasil Varonil tem por hábito dar as caras só em revelações messiânicas e exaltações.Os únicos palanques que servem por direito à sua grandeza. Juscelino, antevendo a vitória, o triunfo de Brasília, da modernidade, do progresso emancipador, eternizava de uma vez dois paroxismos com a realidade — além de usar nosso adjetivo em caso, laudando, inexplicavelmente, o “povo democrata” brasileiro.
Essa paixão pelo grandioso é seu direito, mas deixa algumas perguntas. Como ele escolhe seus sacerdotes? Porque sempre os mesmos? Porque sempre o mesmo discurso? Talvez ele exista fora do tempo, não o conheça, e mudança lhe seja uma ideia inconcebível.
Porque sempre a mesma aparição? E depois dela, porque retornar à mesma desfaçatez? Quanto tempo tardará até que ele venha, definitivamente, recair sobre todos nós? A anunciação será cumprida? Essa vinda foi anunciada, não foi? Se não foi, então ele já apareceu? Já nos tornamos varões da pátria varonil? Sempre o fomos?
Quem tem direito de o chamar, afinal, é quem o conhece ou é quem o inventou?
A realidade, talvez-
Meu país de amor febril.
Tarde calada, um olhar senhoril.
é que o Brasil Varonil, em sua tristeza morna, em sua vergonha ressentida e manchada,
Verão passando em meu abril.
tenha uma rima cifrada, interna, estreita e esquizofrenicamente vigiada. Inacessível-
Sonho de eterno ardil.
a todos.
Musa, lhe escuto servil.
E mais que todos inacessível aos brasileiros.