Esperada, a rainha Amarelinha combinaria com o Pierre, numa boa dinastia, o gatão de mais de seis quilos seria enfim domado pela linda ruivinha de quatro patas

Matheus Lopes Quirino

A gata Julieta, mais conhecida como Bibi, me observa da sua mesa, que era minha. Repousa sob uma camiseta preta velha e uns jornais. Julieta é dorminhoca, dengosa, às vezes se camufla com a camiseta preta, a penumbra e a mesa branca. Ela vai se aninhando nas colchas e até no paninho. Pisa, devagar, até o seu berço ficar plano. É de uma delicadeza calculada, o passo de bailarina e o singelo toque no tecido, seu chão, ora se confunde com a passada de um guerrilheiro em campo minado. Todo cuidado, presta atenção, astuta, ela. E deita.

Ela dorme o sono dos justos e eu a observo se mexer como uma criança no parquinho. Para lá e para cá, rodopia, patinhas em riste. De vez em quando, sonolenta, ela acorda. Faço carinho no queixo, ô, gata manhosa, e ela se envolve entre meus dedos depois de abrir o bocão. É um anjo felino, penso, depois de ter sido resgatada da rua, sua manjedoura. Hoje está mais para uma rainha. E o cronista às suas ordens.

A gata Julieta (foto: Matheus Lopes Quirino)


A gata Julieta tem um miadinho comprido e suave. Miâââuuuu, seria mais ou menos. Não que seja eu um especialista em onomatopeias, é um miadinho arrastado, solfejado quase cansado, quando ela lambe os beicinhos. Quando quer colo. O miado da gata Julieta é diferente do miado do Pierre, o gato da Vana, que mora a uns quarteirões daqui. Gato macho, diz ela, Pierre só não é o único espada da casa porque tem o Manoel. Manoel, casado com a Cláudia, imita a Giovana, fala “Clôódia”. Pierre, tal qual Manoel, faz “Miôówn”, imita Giovana.

Pierre, o gato da Vana (acervo da colunista)

Tal gato, tal dono. Um miado mais incorporado, segundo ela, Pierre quer tomar o lugar do Manoel. É ele o macho da casa, digno de mostrar as devidas garras, enquanto roça nos sofás. Pierre, também chamado de Pipi (que ironia), não tem muito saco, literalmente. Casmurro à primeira vista, ele é castrado e gosta de sofá. Aos seus pés, a Cláudia e a Vana ficam sob o olhar do dono, um pachá felino, que de primeira foi confundido com Marrie, história já contada neste espaço, em outra ocasião.
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Lá em Três Corações, onde está o Nathan, duas gatinhas fazem a farra no quintal da sua casa. Mel e Lila, respectivamente Amarelinha e Pretinha. Duas rainhas que vieram da sarjeta, recolhidas pelo Nathan prestes a virar órfãs. Como gato não vai para orfanato, as duas ganharam um lar, já se apossaram dele, com toda razão. Amarelinha, também conhecida como a rainha do gelo, é uma gatona peluda e laranja, com porte e um quê de pedigree. Ela tem um miadinho que mais se assemelha a um piado. “Piu”, imita o Nathan. Amarelinha gosta de espaço, solidão, não é de muito contato. É uma gatona laranja de pelos arrepiados que, deitada, parece estar empanada feito um nugget.

Amarelinha e Pretinha (foto: acervo pessoal)


Já a Pretinha é todo ouvidos. Rajadinha, preta, meio laranja, ela é um doce. E faladeira. Se a Julieta é apelidada de gata muda, Pierre tem o miado de macho, Amarelinha pia, Pretinha tem o miado mineiro, quando mia rápido, é quase como: “uai”. Carinhosa e curiosa, Pretinha é uma gata magrinha como a Julieta, e neste reino dos gatos, ela é súdita de Amarelinha, sua irmã casmurra. Esperada, a rainha Amarelinha combinaria com o Pierre, numa boa dinastia, o gatão de mais de seis quilos seria enfim domado pela linda ruivinha de quatro patas. Enquanto isso, Julieta olha pra os lados, faz um miadinho lânguido, não à espera de Romeu, mas de um sachê de Atum.

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino