‘Em seu único romance, Sylvia Plath coloca em questão o ‘eu’ e a alteridade’
Laura Pilan
Sylvia Plath, em sua brilhante sensibilidade poética diante da arte e da vida, não falhou em explorar as singularidades da mente humana e, simultaneamente, expor temores que existem dentro de todos nós. Nenhum sujeito está protegido das incertezas do futuro ou do medo de ser paralisado pelas próprias escolhas. Em A Redoma de Vidro, o desequilíbrio de Esther Greenwood é descrito ao lado de episódios cômicos e representações afiadas do esnobe mundo da moda e de encontros com homens enfadonhos.
A figura de Esther não é construída somente a partir do que ela é, mas, especialmente, por meio do contraste que ela estabelece quando comparada aos demais. A forma pela qual a protagonista se distingue em uma multidão é também o que a afasta das pessoas com quem convive, servindo como um perpétuo lembrete do seu deslocamento. Greenwood reconhece que o último de seus desejos é incorporar e participar da ordem social e essa consciência é assustadora.
Contrariando as expectativas, desejar a libertação das amarras e das convenções é igualmente claustrofóbico. Não conhecer o próximo passo é uma nova espécie de prisão. A pressão de uma vida adulta repleta de conquistas não deveria ser um problema para Esther. Ela está na metrópole precisamente por seu sucesso.
Nova Iorque deveria representar uma interminável fonte de agitação e excitação, um prenúncio de um futuro de êxitos e oportunidades, mas não há nada de glorioso na experiência da protagonista. Na cidade, Greenwood conhece a insatisfação de buscar um caminho tradicional e a perturbação de não ter um rumo para seguir. A sorte e o triunfo não permanecem ao seu lado, uma vez que possui profundas incertezas sobre os próprios desejos. Não é possível colecionar vitórias quando não há o que almejar.
A falta de perspectivas assombra as páginas de A Redoma de Vidro. Ao fim do estágio na revista Ladies’ Day¸ um número variado de opções surge diante dos olhos de Esther. Infelizmente, nenhuma delas é agradável. A protagonista aguardava, especialmente, uma oportunidade para participar de um curso de verão ministrado por um escritor famoso, mas sua inscrição é rejeitada.
Em Boston, todas as possibilidades são desanimadoras: a maternidade, representada pela figura de Dodo Conway, ou carreiras dentro do estereótipo de feminilidade – como a datilografia. Não é um segredo para Esther que a vontade de sua mãe é moldá-la ao ideal socialmente estabelecido para as mulheres de sua idade. Dentro do baú de expectativas para a vida adulta, espera-se que Esther encontre não só um emprego estável, mas também um marido.
Buddy Willard, futuro médico e seu antigo namorado, aparece como uma de suas opções viáveis. Contudo, tolerar seu comportamento presunçoso não é simples e nem praticável: uma das únicas convicções sólidas da protagonista é que não pretende fazer parte da existência hipócrita que se materializa na figura do rapaz. Ela o enxerga como alguém que possui uma vida dupla e, ainda assim, se sente superior às outras pessoas. Para Esther, é inaceitável que uma mulher precise apresentar comportamentos essencialmente puros e que seja permitido que homens tenham uma vida pura e outra não.
O afastamento da realidade construída por subjetividades falsas e destinos insípidos é realizado por meio de fantasias. Cada uma de suas hipóteses está mais diante do espectro do possível: ler Finnegans Wake de James Joyce para escrever uma tese, aproveitar o último ano da faculdade, aprender a fazer cerâmica, talvez se mudar para a Alemanha e trabalhar como garçonete até se tornar bilíngue.
Todavia, a oposição mais absoluta às convenções está na veemente – e quase desesperada – afirmação da própria identidade: “Eu sou eu sou eu sou”, pensa Esther, como em uma súplica. A narrativa sensível de Sylvia Plath nos mostra que não há linearidade no processo de recuperação de um desequilíbrio mental – mesmo que exista acompanhamento psicológico.
Ainda que a traiçoeira redoma de vidro esteja suspensa e permita que o ar entre, há uma constante preocupação na possibilidade de que ela volte a aprisionar mais cedo ou mais tarde. O momento da crise é doloroso, a ruptura com a sociedade é brusca e o retorno é mais complexo do que parece. O que há de mais interessante no romance é que não existe a preocupação de construir um final em que todos os receios e incertezas de Esther tenham desaparecido.
A realidade não opera a partir desses princípios e nem a prosa de Sylvia Plath. O que A Redoma de Vidro nos apresenta é um talvez – entre as possibilidades da protagonista, está a vida fora da redoma asfixiante. Longe da prisão de vidro, existem inúmeras chances de tentar e explorar incontáveis caminhos. E, sem dúvidas, isso é o bastante.
A redoma de vidro
autor Sylvia Plath
editora Biblioteca Azul
ano 2019
280 páginas