ANEL

Dá-me um anel; mas que seja

Como o anel em que cingida

Tem gemido toda a minha vida.

Dá-me um anel; mas de ferro,

Negro, bem negro, da cor

Desta minha acerba dor,

Deste meu negro desterro!

Dá-me um anel; mas de ferro...

Sempre comigo hei-de tê-lo;

Há-de ser o negro elo,

Que me prenda à sepultura.

Quero-o negro...seja o estigma,

que decifre o escuro enigma,

Duma grande desventura.

Dá-me um anel; mas de ferro,

Que resista mais que os ossos

Dum cadáver aos destroços

Do roaz verme do pó.

Entre as cinzas alvacentas,

como espólio das tormentas

Apareça o ferro só.

E o teu nome impresso nele,

Falará dum grande amor,

Nutrido em ânsias de dor,

Pelo fel da sociedade...

Que teu nome nele escrito,

Nesse padrão infinito,

Vá comigo à Eternidade.

In “366 Poemas Que Falam de Amor”

Camilo Castelo Branco, nascido em Lisboa em 1825, foi um romancista português, além de cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor. Na Casa dos Poetas resolvemos ir buscar um pouco da sua poesia, meio esquecida pelo leitor comum.