(Peter Bruegel)

São aquelas canções em que o letrista recorda (em geral com nostalgia) aspectos de sua infância. Constituem um gênero à parte, porque embora todo mundo tenha tido infância parece que os sujeitos metidos a poeta são mais propensos a endeusar a sua. Vai daí que as canções de infância tenham um vasto cancioneiro na MPB (e certamente por aí afora). 

Talvez a mais típica delas seja a de Ataulfo Alves em que ele relembra seus dias de menino “no meu pequenino Miraí”, e que já comentei nesta coluna (“Eu era feliz e não sabia”, 23.8.2005). 

A canção de Ataulfo é meditativa e filosófica, mas grande parte das canções de infância são fascinadas enumerações de tudo aquilo que nos deleitava e que já não podemos fazer, porque somos homens barbados e cheios de responsabilidades. Vejam o saudosismo de Chico Buarque em “Meus Doze Anos” (da “Ópera do Malandro”): 

Ai que saudade que eu tenho dos meus doze anos 

que saudade ingrata 

dar banda por aí fazendo grandes planos 

e chutando lata. 

Trocando figurinha 

matando passarinho 

colecionando minhoca; 

jogando muito botão 

rodopiando pião 

fazendo troca-troca. 

O elenco de travessuras é tipicamente urbano (e nesse sentido a fictícia infância do personagem carioca não difere muito da dos garotos de meu tempo em Campina Grande). 

Mas veja-se o velho e imbatível Pinto do Monteiro, o Rei do Repente, nascido em 1895, lembrando sua própria infância num tom não muito diverso do de Chico: 

Ovo de pato e marreca 

quebrar em beira de poço 

abrir milho na boneca 

pra ver se tinha caroço 

ir pra beira da estrada 

jogar pedra e dar pancada 

em cabra, bode e suíno; 

em cachorro pontapé 

que isso tudo foi e é 

brincadeira de menino. 

Menino? Devagar com o andor, que o santo usa saia! Gal Costa popularizou no país inteiro a canção “Teco Teco” de Pereira da Costa e Milton Vilela: 

Teco teco teco teco na bola de gude 

era o meu viver 

quando criança no meio da garotada 

com a sacola de lado 

só jogava pra valer 

não fazia roupa de boneca 

nem tampouco convivia 

com as garotas do meu bairro 

que era natural; 

subia em poste, soltava papagaio 

até meus catorze anos era este o meu mal. 

Mal coisa nenhuma: são as coisas boas da vida. Quer ver, pergunte a Jackson do Pandeiro e Martinho da Vila, que gravaram o clássico de Edgar Ferreira, “Tempo de Menino”: 

Eu que fui menino pobre 

e me criei na estrada 

carreguei frete na feira 

joguei lebre na calçada 

levei bilhete do rapaz pra namorada... 

Só não fui guia de cego, ai ai ui ui 

mas fui craque na pelada... 

Caberia talvez um estudo sociológico que colocasse todas essas brincadeiras lado a lado como no famoso quadro de Peter Bruegel “Children’s Games” (1560) onde ele recenseia as brincadeiras da Europa do seu tempo, mostrando dezenas de garotos numa rua larga demonstrando dezenas de travessuras. Deve existir algo nessas brincadeiras que as torna inesquecíveis.