“Ciro, o seu momento vai chegar. Talvez não seja agora, talvez não seja em 2022”

Isabella Marzolla*

Nasceu em Pindamonhangaba, interior paulista, em 1957, mas se considera cearense de Sobral, onde fica seu reduto político e de seus irmãos, Cid Gomes (senador pelo PDT) e Ivo Gomes (Prefeito de Sobral, pela mesma sigla).  Formado em direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) já foi deputado estadual duas vezes, Prefeito de Fortaleza e governador do estado.  Durante o governo de Itamar Franco, o político foi Ministro da Fazenda, no período em que o Plano Real foi implementado, em 1994.

Fez parte do governo Lula de 2003 a 2006, no qual atuou como Ministro da Integração Nacional. Seu último cargo político foi o de deputado federal, também pelo Ceará, entre 2007 e 2011.   Considerado um “companheiro da esquerda”, filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), com garra e ferocidade de um verdadeiro cangaceiro, Ciro Gomes parece se perder em suas ambições com delay e vaidade estrondosa. 

Entre quinta e sexta-feira passadas (28 e 27/05) o Presidente do PDT, Carlos Lupi, e Ciro Gomes, através de publicações em suas redes sociais oficiais e declarações à mídia apoiaram a implementação do voto impresso auditável no Brasil. Proposta da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) que preside uma comissão especial na Câmara dos Deputados para discutir a PEC 135/2019, do voto impresso. 

Em apoio ao voto ser impresso, Lupi disse em suas redes sociais que “sem a impressão do voto, não há possibilidade de recontagem. Sem a recontagem, a fraude impera” e Ciro, candidato à Presidência ano que vem, reforçou que “[Lupi] não defende a substituição do voto eletrônico, mas o aperfeiçoamento da urna eletrônica, tornando-a capaz de gerar um canhoto impresso”, e concluiu o raciocino questionando, “qual o problema em tornar um sistema, que já é bom, em um sistema melhor?”.

A proposta do voto impresso é sustentada veementemente pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) — que inclusive agradeceu o apoio do PDT à pauta em suas redes sociais na quinta (27) — e por toda a ala bolsonarista do Congresso, da sociedade civil e, obviamente, pelo Presidente Jair Messias Bolsonaro (sem partido).

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) já afirmou que as próximas eleições de 2022 continuarão com o atual sistema das urnas eletrônicas, considerado como um dos mais modernos, eficientes e seguros no mundo. 

E quais lembranças o voto impresso nos traz? Isso mesmo! A tentativa de deslegitimação do Presidente Donald Trump nas eleições norte-americanas em novembro de 2020, nas quais o então Presidente se negava a aceitar sua derrota, afirmando que as eleições no voto impresso —de apuração vagarosa   — eram fraudadas. Havia tantas declarações e incitações de Trump aos seus apoiadores, que os mesmos se revoltaram e invadiram o Capitólio no dia 6 de janeiro. 

Já no lado de cá do xadrez político, Bolsonaro e seus apoiadores já manifestaram seu amor pela época da ditadura, pelo autoritarismo e pela continuidade do clã Bolsonaro no poder, custe o que custar. 

Em 2018, o PDT teve cerca de 12,47% dos votos na corrida presidencial, que vieram em grande parte de eleitores da esquerda, centro-esquerda ou centro. É curiosa a estratégia de campanha do PDT e do Ciro Gomes, que pensaram ser vantajoso e bem-visto apoiar a implementação do voto impresso. Quem sabe, o que o recém-contratado marqueteiro, e ex do PT, João Santana, tem debaixo das mangas?  Uma pesquisa mirabolante sobre o comportamento eleitoral atual? 

Além do apoio ao voto impresso, considerado um desejo dos eleitores bolsonaristas, Ciro também, assim como fez no 2º turno das eleições em 2018 indo para Paris e não apoiando Fernando Haddad (PT), acentuou sua mágoa e “antipetismo” dedicando seus passos iniciais no aquecimento para 2022 em críticas ferrenhas à Lula e ao PT e poucas ao Presidente atual.

A esquerda ambientalista morna de Marina Silva (REDE) – e atualmente meio morta; angariou 1% de votos em 2018 — apoia Ciro e despreza o PT, onde foi filiada por 24 anos e ocupou o cargo de Ministra do Meio Ambiente durante o governo Lula, até deixar o partido em 2009 devido a divergências internas. 

Uma ala do PSOL apoia o lançamento de uma candidatura própria à Presidência em 2022.Contrariando outras vozes importantes psolistas, como a de Guilherme Boulos e a de Marcelo Freixo, que acreditam ser mais plausível dar suporte ao candidato petista, líder nas pesquisas de intenção de voto até o momento, em uma tentativa de compor uma frente ampla. 

Por que a esquerda é tão fragmentada, tão desunida, tão magoada entre si? 

Ciro, o seu momento vai chegar. Talvez não seja agora, talvez não seja em 2022. Joe Biden só venceu o republicano de extrema direita Donald Trump nos Estados Unidos porque os democratas se uniram, a ala mais à esquerda/socialista representada principalmente por Bernie Sanders cedeu espaço a um político centrista, conciliador, “raposa-velha” no Congresso americano, gago e especialmente sem carisma. Por quê? Para derrotar o trumpismo. 

A desunião e desorganização, sobretudo partidária, da oposição ao governo atual não levam a nada. Levam a reeleição de Bolsonaro e sua ideologia, que continuará prevalecendo a empilhar corpos e promover curas milagrosas inexistentes.

*É jornalista e também colabora com o Blog Inconsciente Coletivo, hospedado no Estadão.

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Publicado por Isabella Marzolla

É jornalista, escreve no blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão. Escreve semanalmente na Fina. Twitter: @IsaMarzolla Ver todos os posts de Isabella Marzolla