Em O Pássaro Secreto, seja pelo núcleo familiar fortemente influenciado pela “trindade mitológicas das Graças Gregas” à volta da figura do pai Heleno Negromante, seja pela narrativa distendida em pequenos capítulos intercalando sorrisos coletivos e dramas pessoais, há um trabalho de carpintaria em todo livro para tornar o retrato de uma infância tardia em uma janela para dilemas universais.

André Vieira

À primeira vista, os quinze anos de Aglaia não fogem do estereótipo da época: longas voltas de bicicleta entre a pracinha e a escola; um fascínio irrefreável por doces, bolos e queijos; uma ansiedade ardente pelo descobrimento da sexualidade. Contudo, conforme mergulhamos na narrativa e avançamos nos restos de penas e farrapos de asas estirados por quartos, cozinhas, temos certeza que o livro não se trata de “morangos com açúcar”. Se existe doçura na narrativa é porque Marilia Arnaud transforma uma temática comumente tida como menor em uma pintura de dimensões gregas.

A metáfora não é mero acaso. Em O Pássaro Secreto, seja pelo núcleo familiar fortemente influenciado pela “trindade mitológicas das Graças Gregas” à volta da figura do pai Heleno Negromante, seja pela narrativa distendida em pequenos capítulos intercalando sorrisos coletivos e dramas pessoais, há um trabalho de carpintaria em todo livro para tornar o retrato de uma infância tardia em uma janela para dilemas universais. Inveja, vingança e soberba respingam páginas e páginas de brigas pelo controle da televisão, idas frequentes à praia buscar conchinhas ou festas de quinze anos regadas a refrigerante e brigadeiro.

Mas o que melhor traduziria a tônica do livro seria a solidão, o tal pássaro secreto que habita Aglaia. Desde as primeiras páginas, conhecemos o destino final de suas quedas, deslocada do papel personagem ativo no romance ao de narrador de lembranças, Aglaia relata desde o sanatório os primeiros passos de seu pássaro interno. É também desta clausura de gestos e silêncio de suas palavras que a narradora pode, enfim, esclarecer o que lhe aconteceu naqueles meses, dias e horas que conviveu lado a lado com a agonia secreta.

Nesse sentido, a obra poderia ser definida como um livro de memórias, reconstituindo os dias, as paisagens e, sobretudo, as sensações que Aglaia viveu entre sua “família de gregos”, seu melhor amigo crush, Demian e a carinhosa avó, Sarita, antes do surgimento da “Coisa”. Contudo, seria leviano caracterizar o romance como um mero diário adolescente ou relato confessional desde o cárcere. Embora centrada em temas complexos e questões agudas — sobretudo aos olhos de uma adolescente —, O pássaro secreto esbanja simplicidade e poesia, principalmente por utilizar uma linguagem familiar e extremamente profunda. Ou, como a autora coloca “de palavras certas”

É essa certeza de Aglaia por contar uma história onde foi ré e inocente, heroína e vilã, menina e mulher, narradora e personagem que traz à tona mais do que uma complexidade de papéis e perplexidade de focos narrativos. Ela revela que por mais que gostemos de livros consagrados, que nos apaixonemos por boa música, que queiramos que nossas histórias sigam o fluxo das grandes narrativas já escritas, não podemos mudar a essência dentro de nós, ou no caso da personagem principal, que “põe-se a dançar com extravagância, marretando as patas e arrastando o bico de lâmina no chão do meu peito”. 

Por outro lado, é apenas quando Thalie, filha francesa de outro casamento de seu pai, vem passar a morar com a “família grega” que há o despertar do pássaro dentro de Aglaia e seu entorno, razoavelmente estável, começa a desmoronar. Pais viram as costas, melhores amigos começam a ficar distantes, o amor inquestionável de sua avó se torna amargo. O paradoxo do florescer de sua verdadeira essência com do ruir da antiga vida é encarnado pela figura da meia-irmã, mas catalisado pela figura de uma narradora interna: um corvo noturno que compele uma natureza destrutiva a Aglaia. O objetivo desta ave é claro, criar um mundo nostálgico de ilusões em movimento.

A dor e a solidão são bem reais. Fossem tardes longas observando Demian e Thalie saindo para um passeio embaixo de sua janela, fossem noites insones planejando vinganças contra a própria vida, nenhuma pedra mantém-se de pé no mundo emplumado de Aglaia. Ainda sim a história de seus pecados e lista de seus sofrimentos precisa ser contada. Mesmo quando dopada de remédios e cada vez mais distante de sua antiga vida, a resistência das palavras, por mais dolorosas que sejam, é a única maneira de seguir em frente.  “Dizem que narrar é um modo iluminar nossas zonas escuras, as palavras têm o poder de fazer cair o lençol branco das assombrações e escrever uma forma de se desgarrar de si e se entrar”.

Em resumo, o que cativa O Pássaro Secreto não são apenas sua narrativa palpitante ou rico léxico e estilo, mas a maneira como enxergamos o pássaro que habita dentro da gaiola de todos nós, e que, com sorte, pode voar com todo seu esplendor sem temer os cantos de outras aves. Em uma edição agradável sob os cuidados da editora Record, o ganhador do Prêmio Kindle 2021 tem finalmente um lar para leitores que ainda não se aventuraram para fora do ninho de folhas. 

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Publicado por André Vieira

Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira