02/04/2010
por José Reinaldo do Nascimento Filho
Terminei Contraponto.
Para alguns historiadores o século XIX deveria ter terminado após a 1º Guerra Mundial (1914-1918), isso porque a Europa estava muito parecida, até então, ao que tinha sido nas últimas décadas: países governados por imperadores, nobreza financiando vultosas festas, exércitos tinham homens a cavalo e as damas andavam com pomposos vestidos.
Quatro anos depois a Guerra acabava. As coisas mudaram com uma velocidade assustadora: Presidentes governavam; automóveis tomavam as ruas; o submarino e o avião infringiam leis da física até então conhecidas; em vez da ópera e valsa vienense, o rádio, o jazz, os discos e o cinema, questionavam o gosto erudito da nobreza; o mundo não se dividia mais entre os partidários do Antigo Regime e os defensores dos valores da Revolução Francesa. Nesse momento, a disputa se dava entre o capitalismo e socialismo.
As mulheres ganharam espaço no meio social – e não foram apenas seus cabelos que encurtaram e as saia que subiram, estas trabalhavam nas fábricas, lojas e escritórios, enquanto que seus homens guerreavam . Contraponto entra nessa estória como O ensaio sobre esse mundo moderno. Huxley constrói uma trama demonstrando todas essas mudanças rápidas e conflitantes. Agora entendo seu título. A palavra contraponto é um termo musical designado a composição em polifonia, ou seja, vários tipos de sons ao mesmo tempo, contrariam as regras de harmonia musical. Huxley tenta, analogamente, fazer Contraponto com os sentimentos humanos em vez de notas musicais. Aqui alguns personagens conseguiram acompanhar o rápido, o frenético, o descartável, o inquestionável, a máquina; enquanto que outros, ainda encarcerados pelos valores da época, angustiam-se por verem “seu” mundo ruir, não podendo fazer nada, senão acompanhar o iminente “novo” que é imposto.
A personagem que resume as intenções de Aldoux é, coincidentemente ou não, aquela que mais me apaixonei, Lucy Tantamount. Responsável pelos diálogos mais sensíveis e agressivos, Lucy é a sinopse dessa nova geração. Poderia aqui tranquilamente escrever um longo texto sobre essa figura diferenciada entre tantos, contudo colocarei aqui, para deleite de todos, mais um trecho da obra, sendo que este resume a personagem (se isso é possível) e a intenção maior do autor (para quem assistiu Amor sem Escalas a surpresa será muito mais interessante).
O que se segue é o diálogo entre Lucy e Walter.
Romântico, romântico! – escarneou ela. – Tens uma maneira tão absurdamente antiquada de pensar nas coisas. Matar e tripudiar sobre cadáveres e amar e o mais que segue. É ridículo. Por que não andas logo de fraque e plastrão?… Procura ser um pouco mais moderno.
– Prefiro ser humano.
– viver modernamente é viver rapidamente – continuou ela. – Não podes carregar um vagão cheio de idéias e romantismo nestes tempos. Quando viajamos de avião, devemos deixar para trás as bagagens pesadas. A velha alma de antanho sentava muito bem quando se vivia vagarosamente. Mas é pesada demais para os nossos dias. Não há lugar para ela no avião…
– Nem mesmo para um coração? – perguntou Walter. – Não me preocupa muito a alma. – Já uma vez se preocupara com ela. Mas agora que a sua vida não consistia em ler filósofos, ele estava um pouco menos interessado nela. – mas o coração – ajuntou -, o coração…
Lucy sacudiu a cabeça.
– Talvez seja uma pena – concedeu ela. – mas tudo tem o seu preço. Se gostamos da velocidade, se queremos ganhar terreno, não podemos levar bagagem. Trata-se de saber o que queremos, e de estarmos prontos a pagar o preço devido. Eu sei exatamente o que quero; assim, sacrifico a bagagem. Se te agrada viajar num caminhão de mudanças, viaja. Mas não esperes que eu te acompanhe, ó meu suavíssimo Walter. Não esperes que eu leve o teu piano de cauda no meu monoplano de dois lugares. (pág. 210)
Preciso escrever mais alguma coisa?
30/03/2010
“Truve” para vocês mais alguns trechos interessantes. Leiam:
“Beatrice cosia. O relógio tiquetaqueava. O instante em movimento que, segundo Sir Isaac Newton, separa o passado infinito do infinito futuro avança inexoravelmente através da dimensão do tempo. Ou, a crer em Aristóteles, um pouco mais do possível a cada instante se tornava real; o presente imobiliza-se e ia incorporando a si o futuro, como um homem que ficasse engolindo para sempre uma fita de macarrão sem fim”.
Nesse trecho temos Walter – apreensivo e preocupado com a esposa que deixou em casa a esperar pelo seu regresso – conversando com Spandrell – personagem curiosamente cínico e sarcástico, e que já teve um caso com a amante de Walter, a graciosa, e até então melhor personagem, Lucy.
“- É jovem ainda. – Foi assim que Spandrell comentou a noite. – Jovem e um pouco insípida. As noites são como os seres humanos: só começam a interessar depois que ficam adultas. Lá pela meia-noite elas atingem a puberdade. Um pouco depois da 1 hora chegam à maioridade. A sua plenitude está entre 2 e 2 e meia. Uma hora mais tarde elas vão ficando cada vez mais desesperadas, como essas mulheres devoradas de homens e esse homens maduros em declínio que andam por aí a saltitar num pé só mais violentamente do que nunca, na esperança de se convencerem a sim mesmos de que não são velhos. Depois das 4 horas, as noites entram em plena decomposição. E a sua morte é horrível. Verdadeiramente horrível, ao nascer do sol, quando as garrafas estão vazias, as pessoas têm um aspecto de cadáveres e o desejo se desfaz em desgosto. Tenho um fraco pelas cenas de leito de morte, confesso – ajuntou Spandrell”.
27/03/2010
Comecei a reler Contraponto.
Quem me conhece sabe que considero esse livro como o melhor dentre todos; isso acontece devido aos seus diálogos e descrições incomparáveis, nunca antes feitas por qualquer outro autor lido por mim. Agora, se vocês não sabem o porquê de tanta admiração, leiam os dois trechos seguintes e me digam o que acharam.
Nessa cena o personagem Walter Bidlake lembra, angustiado e irritado, que sua mulher, Marjorie, está esperando um bebê. Vejam como ele pensa essa situação:
“Marjorie dava impressão de fealdade, de cansaço e de doença. Dentro de seis meses lhe nasceria o bebê. Algo que tinha sido uma célula única, um grupo de células, um saquinho de tecidos, uma espécie de verme, um peixe em potencia, com guerlas, agitava-se-lhe no ventre e um dia viria a ser um homem – homem adulto, que sofre e goza, que ama e odeia, que pensa, que recorda, que imagina. E o que tinha sido uma ampola gelatinosa dentro de seu corpo inventaria mais tarde um deus e o adoraria; o que tinha sido uma espécie de peixe haveria de criar e, tendo criado, se transformaria num campo de batalha entre o bem e o mal; o que tinha vivido nas trevas dentro dela, como um verme parasita, haveria de olhar para as estrelas, escutar música e ler poesia. Uma coisa se transformaria numa pessoa, uma massa minúscula de matéria se converteria num corpo humano, num humano espírito”.
Já nessa cena temos o cientista Lorde Edward, e seu ajudante Illidge, preparando-se para fazer uma nova experiência com uma lagartixa, quando uma linda melodia invade os ares do laboratório:
“O sopro de Pongileoni e a esfregação dos violinistas anônimos tinham sacudido o ar do grande hall, tinham posto em vibração os vidros das janelas que davam para ele; e estas por sua vez tinham sacudido o ar do apartamento de Lorde Edward, do lado mais afastado. O ar posto em vibração havia sacudido a membrana timpânica de Lorde Edward; a cadeia de ossos – martelo, bigorna, estribo – tinham sido posta em movimento e fora agitar a membrana da janela oval, criando uma tempestade infinitesimal no fluido do labirinto. Os filamentos terminais do nervo auditivo estremeceram como algas num mar bravo; um grande número de milagres obscuros se efetuaram no cérebro, e Lorde Edward murmurou extaticamente: – Bach!”.
Perfeito, não?

