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Jul21

Maria do Rosário Pedreira

O querido agente literário Ilídio de Matos (que já cá não está e de quem tenho saudades porque era um homem bom como há poucos) gostava muito de usar a expressão «estas gramáticas» com um significado todo dele. «Já sabe como são estas gramáticas, não sabe?», exclamava ele quando um editor fazia uma oferta milionária para tirar um autor a um colega. E de outra vez, quando lhe dirigiam perguntas estúpidas, queixava-se: «Estes parvalhões não percebem nada destas gramáticas.» E, se era melhor tratar de um contrato com urgência, podíamos ouvi-lo: «Vamos lá tratar destas gramáticas antes que alguém se chegue à frente.» Eu achava-lhe graça, e não era só eu. E agora lembrei-me dele porque estimo muito a gramática e (deixem-me brincar um pouco com isto) acho-a até bastante plural. Mas o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo mandou dizer que, depois do horroroso incêndio, vai abrir de novo as portas a todas, todos e «todes». E eu quase ouvi na minha cabeça o Ilídio a dizer baixinho que já nem o Museu da Língua conhece a gramática. Ele diria de certeza que todos cabem na palavra «todos» e que usar «todes» é sublinhar a diferença dos que querem ser iguais. Bem, o que é um facto é que a coisa deu brado no Facebook, com uns do lado de uma gramática e outros do lado da outra gramática. E uma escritora com bastante sentido de humor até comentou ao ver a palavra não dicionarizada: «A sério? A séria? A série?» Estou com ela. Sou mulher e sinto-me incluída no «todas», e no «todos» também.