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| Fotografia da minha autoria |
«Só eu sei o tanto que eu já chorei sozinha»
O Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres assinala-se a 25 de novembro, com o intuito de denunciar este tipo de abuso. E a prova que datas como esta permanecem necessárias manifesta-se no número elevado de casos. A título de exemplo, entre janeiro e setembro, de 2020, foram registados mais de 11 mil crimes. Até quando?
É imperativo alertar. Falar. Reagir. Lutar. Parar de ignorar. Porque esta narrativa representa-nos a todos, enquanto sociedade, e, pessoalmente, não quero ter nas mãos um destino condenado por continuarmos a fechar os olhos para esta realidade. Assim, numa linguagem transversal, de alguém que tem uma voz social bastante ativa, sem medo de fazer barulho pelas causas certas, Carolina Deslandes não permitiu que a iniciativa passasse em claro, partilhando um projeto composto por duas partes: um EP e uma curta-metragem, apresentados em concerto, no Capitólio, e cujas receitas revertiam a favor da UMAR. Dando «a cara por um futuro diferente», convida-nos a seguir um plano semelhante, porque «a vida não é só o que nos acontece a nós. É sabermos estar na posição do outro», sendo uma plataforma de apoio para todos aqueles que nem sempre são capazes de se defender.
Mulher retrata a história «que não existe apenas nos telejornais». Como a artista mencionou, é um murro na mesa, uma vez que expõe o abuso, a misoginia, a violência psicológica, o sexo, a religião e, também, tudo «o que é ser uma mulher de sucesso, numa comunidade que nos quer calar e diminuir constantemente». Apresentando uma mensagem de extrema importância, é evidente que não podemos ficar à espera. Temos de impulsionar a mudança, para que o desfecho não se repita.
O registo é mais cru e intenso. A transbordar de pertinência. E com muita identidade. Por isso, recorrendo às apresentações que a Carolina fez de cada música, permitam-se descobrir este EP tão imprescindível.
1. TEMPESTADE
Fala sobre a dor, fala sobre querer fugir e sobre o exagero que
é atribuído à mulher que pede ajuda. Que esta canção vos relembre
que «ele só me puxou o braço» ou «ele é só bruto, mas é boa
pessoa» não são desculpas. E o mau trato não é só físico.
2. APETECE
É a canção mais libertadora. Estamos a precisar de mais mulheres
que não tenham medo de falar de sexo e de uma sociedade que
aceite isso. Somos sexuais, somos livres e a vida era uma merda
sem tesão. Existe uma ideia errada de que a mulher só corresponde,
ou não, ao desejo sexual do homem. Nós temos desejos, iniciativa, e acredito que vai ser cada vez mais comum podermos expressá-lo.
3. VERGONHA NA CARA
É o grito que tenho preso na garganta há muito tempo,
depois de todas as notícias que têm saído sobre a minha vida
pessoal, sobre as minhas opiniões, sobre o meu corpo. É um
murro na mesa contra este movimento mediático que tem como
objetivo denegrir a imagem da mulher na comunicação social.
4. NÃO ME IMPORTO
Esta música fala por si. E, para mim,
é mesmo o renascer depois da despedida.
Na curta-metragem podem, ainda, escutar mais dois temas desarmantes.
