“Hmmm, eu posso tentar pra te fazer um agrado, se você quiser mesmo. Mas é o tipo de coisa que você tem que viver na prática ou não aprende, sabe, não dá pra entender só de eu falar assim”./ Imagem: reprodução LydiaCecilia.Art

‘Meu Deus a Carol gosta de tudo que eu gosto, faz tudo o que eu faço, que mulher doida’. Eles são tão cegos e é tão fácil que às vezes nem tem graça. Nunca vão achar que é de propósito, isso aí eu te garanto”.

Isabela Nunes

B.E. nº 11 06-19

INSTITUTO DE PSICOLOGIA W. F. D.

MINAS GERAIS MG

P.

“É, bem, leva um pouco de trabalho sim. Mas é uma arte que super pode ser dominada, mais ou menos. O segredo é ter paciência, caprichar nos elogios, fazê-lo se sentir como Deus. Ele nem percebe que tem algo sendo tirado dele até ser tarde demais, e a essa altura eu já casquei fora há muito tempo, tchau-tchau, até nunca mais. Você tem que armar a teia com cuidado, sabe, tem que fingir que não sabe bem o que está fazendo, que é uma jovem-mulher-fraca-e-perdida, que está perdidamente apaixonada, que pelo resto da sua vida miserável de mulher-fraca-perdida a memória do pau dele vai estragar todos os outros paus que casualmente – casualmente, porque você nunca irá procurá-los, claro, porque estará ocupadíssima vivendo a vida celibatária de sacerdotisa apaixonada – casualmente aparecerem no seu caminho. E aí depois disso é mamata. Fácil fácil, mão na roda, que nem – como é que se diz? – tirar doce de bebê. E eles são uns bebezões mesmo, todos eles. Todos morrendo de vontade de se sentirem especiais, quase se matando por um gostinho da sensação de ser o Melhor Homem do mundo, o Mais Inteligente, o Mais Descolado, dono do Santo Pau, querendo tanto que alguém também perceba o que eles percebem – que é, obviamente, o fato de serem superespeciais e únicos – que vão dar qualquer coisa pra qualquer uma que fizer um elogiozinho ou dois. Melhor ainda se você dar uma de burra e ele precisar te instruir nos assuntos da Vida ou da Arte ou da Filosofia, aí é mamata na certa”.

P.

 “Bem, pra ser sincera, eu acho que não tenho lá muito critério. A passagem de qualquer camisa errante na minha frente é a passagem de uma vítima em potencial. Mas se fosse pra eu chutar assim eu diria que são aqueles tipos confiantes-inseguros, aqueles que tentam parecer descolados e legais com aquele esforço sutil de quem no fundo morre de medo de não ser descolado e legal. Te garanto que esses têm a combinação certa de vontade-de-ser-melhor-que-todo-mundo e crença-irrevogável-na-própria-mediocridade pra fazer a coisa dar certo. E eles têm que ser interessantes, claro. Têm que ter alguma coisa que eu queira, que eu ache valiosa”.

P.

“Hmmm, eu posso tentar pra te fazer um agrado, se você quiser mesmo. Mas é o tipo de coisa que você tem que viver na prática ou não aprende, sabe, não dá pra entender só de eu falar assim”.

P.

“Tá, tudo bem, mas eu avisei. O melhor jeito que dá pra explicar é meio que, bem, é que é meio que nem um silogismo. Thiago gosta de jogos; Carol gosta de Thiago; Carol gosta de jogos. Sacou? Se você tiver talento, absorve meio que osmoticamente, você nem sente, nem pisca. Mas o negócio é que tem que acreditar mesmo, saca? Tem que querer de verdade. Carol não pode fingir que gosta de Thiago, entende, tem que ser realzão, tem que querer muito. Senão não dá, melou, Carol fica sem a faca na mão e o queijo também dá no pé”.

                P.

                “Bem, mais ou menos. Claro que não dá pra não notar, depois que a coisa já foi e tal e já tá tudo super óbvio e Carol absorveu a coisa silogística até o talo. Mas aí que tá, eles são todos burros. Tão todos apaixonados demais pelo próprio pau pra ver além das bolas. Eles nunca vão pensar que você roubou alguma coisa deles, vão pensar que você tá caidinha, entendeu? Vão te chamar de maluca, quem sabe, talvez até de obcecada. ‘Meu Deus a Carol gosta de tudo que eu gosto, faz tudo o que eu faço, que mulher doida’. Eles são tão cegos e é tão fácil que às vezes nem tem graça. Nunca vão achar que é de propósito, isso aí eu te garanto”.

P.

“Sim, é, por isso eu disse que mais ou menos. Porque eles percebem sim, de uma forma ou de outra. Mas a verdade é que eles nem ligam pra isso que eles têm, sabe. Isso que eu vejo de especial ou interessante, isso que me faz querer ser eles, comer eles, engolir eles, eles tão cagando pra isso. Não têm compromisso estético com a coisa. Não têm paixão, entende? Eles usam aquilo como ferramenta pra parecer que são descolados e superinteressantes e legais, pra fugir da própria mediocridade do jeito mais medíocre possível como os bebezões covardes que são. Por exemplo, tem esse cara, Joaquim. Eu lembro que ele tinha uma edição bem antiga de O Mito de Sísifo na cabeceira dele, quase intocada mas bem antigona, e ele deixava sempre à vista pra todo mundo ver, nunca saía dali, e eu podia jurar que quando a gente transava ele calculava o ângulo exato pra eu ficar cara a cara com o livro ali. Daí que ele gostava de jogar no ar que era absurdista, entende, e ficava falando todas essas coisas superintrigantes sobre pedras e montanhas e tal, que na época eu achava o máximo porque não sabia que existia alguma coisa além daquilo. E aí eu ouvia ele falando e pensava meu deus eu quero ser como ele; não, não como ele, eu quero ser ele. Daí pimba: seis meses depois, eu era especialista em Camus, muito mais do que ele jamais foi ou se importaria em ser. E meio que é isso, resumido bem aí. Você engloba aquilo em você, entende? É assim: no momento que você quer, de repente você é. Daí o segredo é não parar de querer nunca, porque senão você tá ferrada, você não é nada. Gasta muita energia, é claro. Mas pode ter certeza que, enquanto quiser, você vai aproveitar aquilo muito melhor do que ele aproveitaria em mil vidas. Camus é só mais um nome na cabeceira dele, ou seja lá o que for a analogia pro seu caso. Ele não tá nem aí. Nunca. Não liga praquilo. Não se importa. Não queima, entende? Se você arde no lugar dele, tanto melhor. Pra ele e pra você, eu acho. E pro pau dele que de repente vai parecer enorme com tanta louvação”.

P.

“É claro que é injusto. Mas se você tem dilemas éticos pesando sua consciência, você não entra pro ramo dos apaixonados pra começo de conversa. É injusto e é mentiroso, eu concordo, mas ao mesmo tempo é real, entende? Quer dizer, acho que não dá pra você entender se não é você ali, se não é você que sente e faz. É real seu amor e também é real sua vontade de se apropriar completamente daquilo. É real sua fome. Se ele te alimenta, seja como for, que importa se o resto for ilusão? Que importa se você o engana?”

P.

“Bem, eu chamo de antropofagia; vocês chamem do que quiserem. Eu fico aqui o tempo que for, sabe. Só que vocês confundiram total, é o que eu tô tentando explicar. Ninfomaníaca não. É mais tipo cleptomaníaca, entendeu?”