Marília Costa

Créditos da imagem: “Autel de Lycée Chases”, de Christian Boltanski, 1986–87

Sergio Blanco é dramaturgo e diretor franco-uruguaio, conhecido internacionalmente com obras traduzidas para o português, catalão, inglês, francês, alemão, turco, japonês, árabe e norueguês. Tem o trabalho como dramaturgo reconhecido por diversos prêmios como os prêmios Dramaturgia de la Intendencia de Montevideo; Nacional de Dramaturgia del Uruguay;  Florencio al Mejor Dramaturgo.

Sergio Blanco dedicou-se a praticar a autoficção em sua obra dramática e também escreveu o ensaio Autoficción, Una ingeniería del yo (2018) em que teoriza sobre a autoficção no teatro criando uma nova definição centrada no que ele mesmo denomina “pacto de mentira e pacto de verdade” para reelaborar a sua maneira o pacto autobiográfico de Philppe Lejeune. Além disso, também elabora os 10 mandamentos para a autoficção, que seriam algumas operações indispensáveis à autoficção que serviriam como fio condutor para a criação dos espetáculos autoficcionais.

Muitos críticos da autoficção a condenam pelo viés narcisista e pela exposição que o dispositivo teórico, muitas vezes, parece mobilizar. No entanto, na visão de Sergio Blanco, a autoficção funciona a partir de um exercício de alteridade. Assim, a autoficção toma como ponto de partida o “eu” com o objetivo de encontrar o “outro”, autoficção não como autoexposição, mas como uma busca de si mesmo e através do entendimento de si buscar o entendimento da condição humana.

Na contramão da cultura do eu tem-se no século XXI a constante ameaça de negação da subjetividade impulsionada pelas grandes economias e mercados que visam acabar com toda forma de expressão individual no mundo do trabalho, o que torna a sociedade adequada para a implementação do autoritarismo político e do fundamentalismo religioso. Para Blanco, a autoficção é a alternativa artística para resistir a essa tentativa enfática de apagamento da subjetividade.

En este comienzo del siglo XXI, la autoficción vuelve a activarse como una forma de resistir a este individualismo totalizador que termina formateando comportamientos y conductas aberrantes, para volver así a relatos autoficcionales que aspiren  a una palabra singular, libre, autónoma e independiente. Una palabra ajena a los mercados, los misiles y las modas. Una palabra que se busca y que busca. Una palabra que se abre a los espacios interiores de retrospección y reflexión. Una palabra que duda. Que tiembla. Que piensa. Una palabra que sobre todo que se piensa.

O pensamento de Sergio Blanco é interessante porque muitos críticos da autoficção a associam ao individualismo exacerbado e o dramaturgo franco-uruguaio a enxerga como uma forma de resistência ao individualismo exacerbado. Desse modo, coloca no centro da discussão a importância de dizer eu no século XXI, colocando em xeque o traço inconstante e subjetivo da existência individual, a fim de possibilitar a compreensão de que o eu nunca é apenas aquele que o enuncia, mas sim um outro: “La autoficción se inscribe así en un proyecto político de edificación de un yo emancipado que busca desesperadamente a los demás”.