Aquele momento em que dá saudades de ler Jorge Amado.


Já falei deste livro aqui - de como o desconhecia, e de como chegou às minhas mãos.

Ler Jorge Amado é um pouco como voltar a casa. Peguei neste livro no Natal - menos dez dias depois de ter, realmente, voltado a casa, a Portugal, após dois meses a viver fora. Jorge Amado escreveu vários romances, mas apenas uma peça de teatro: O Amor do Soldado. Trata de Castro Alves, poeta brasileiro, figura muito ligada ao movimento abolicionista.

Castro Alves é o soldado desta história. O objecto do seu amor, no entanto, não é certo: se, por um lado, o poeta vivia uma intensa história de amor com a actriz portuguesa de teatro Eugénia Câmara, a verdade é que o seu amor pela liberdade e pela luta anti-esclavagista era forte; os dois amores eram conflituantes.

EUGÉNIA (subitamente revoltada) - Tu és apenas egoísta... Terrivelmente egoísta. Só pensas em ti, em tua luta, em tua obra, em tua poesia. Os demais não importam!

A vida de Castro Alves foi breve (1847-1871), e a narrativa passa-se nos cinco últimos anos da sua vida, começando no momento em que se encontram, no Recife, em 1866, até ao último adeus entre o casal. Os cenários são Recife, mas também São Paulo e Rio de Janeiro. O amor de Castro Alves por Eugénia foi atribulado: Eugénia era uma musa para o poeta, que escrevia odes à liberdade; mas posteriormente abandonava-a, à noite, para ir para a sua luta, para receber, proteger e reencaminhar grupos de escravos que haviam fugido.

A praça, a praça é do povo

Como o céu é do condor

É antro em que a liberdade

Cria águias em seu calor!

Em Eugénia, Castro Alves encontra hinos à liberdade; mas Eugénia não quer rivalizar com o amor do poeta pela liberdade - e acaba por decidir pelo seu próprio amor, pela sua carreira no teatro, convencida que são paixões inconciliáveis. Aliás, os dois amores de Eugénia são, tal como os dois amores de Castro Alves, exigentes, conflituosos, fortes.

Há peças dentro desta peça. Há diálogos fortes, paixões confusas e poesia, um narrador que fala directamente com o público e que estabelece a correlação entre esta luta, do movimento abolicionista, com a luta contra o nazismo e o fascismo um século mais tarde. A peça foi escrita em 1944, por encomenda da actriz Bibi Ferreira - mas nunca foi posta em cena, tendo sido publicada três anos depois, para celebrar o centenário do nascimento do poeta da liberdade.

Acreditamos que, nestes tempos dramáticos em que homens de todas as raças lutam pelo direito à liberdade, maior bem dos homens, sem o qual a vida não é digna de ser vivida, o exemplo de Castro Alves, construtor da democracia, merecia ser apontado mais uma vez.

É também feito um retrato da sociedade do século XIX: escravatura, pobreza. A escravatura viria a ser abolida em 1888, após a morte de Castro Alves.

5/5

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