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Tordesilhas – 2014 – Mulheres e Literatura – 189 páginas – Nota4♥♥♥♥.

Em uma de minhas pesquisas sobre o assunto, descobri este livro escrito em 1928 sobre um ensaio referente mulheres e a ficção que seria apresentado em uma palestra para uma universidade para mulheres na Inglaterra naquela época. Posteriormente, seus artigos extensos foram copilados e publicados em livro. Mistura estilo acadêmico e um discurso ficcional sobre o assunto. Feminista, sem ser radical, Virginia utilizou-se de metáforas e ironias, que em certos momentos tive de recorrer à internet para entender do que se tratava. Em uma dessas pesquisas, descobri que a Editora Nova Fronteira já havia feito uma publicação anterior a essa do livro, que encontra-se acessível a todos, em PDF, na internet, apenas com um conteúdo menor, sem o posfácio e sem trechos do diário de Virginia. A analogia do gato sem rabo sobre como as mulheres são vistas pela sociedade e sobre a inventada irmã de Shakespeare foram pontos altos da leitura. Virginia deixou muito mais questionamentos e perguntas sobre o tema do que respostas e isso foi feito de maneira intencional, afinal, baseado em suas pesquisas é fato afirmar que na realidade o tema em si, mulheres e ficção não existia porque seria impossível acontecer sem um teto para si e uma independência financeira mínima que fosse. Abaixo farei um resumo do livro e após, uma análise minha sobre o assunto. Porquanto deixo a vocês as palavras de Noemi Jaffe (Posfácio):

“…há praticamente um século da publicação do ensaio, as conquistas femininas são ainda maiores, em grande parte do mundo, divórcio, pílula anticoncepcional, realização profissional em todas as frentes, direito pleno ao estudo, educação mista, escolha ou não da maternidade, possibilidade de criar um filho sozinha, homossexualidade em discussão permanente, salários cada vez mais próximos aos do homens e, no Brasil, uma presidenta”.  Página 168.

O que me leva a questionar sobre o que ocorre no exato momento no país de que se Dilma fosse do gênero masculino, a abordagem violenta contra ela seria igual, ela seria avaliada da mesma forma?

O livro tem a premissa de que uma mulher para conseguir ser escritora, precisa de um teto todo seu (título da palestra e do livro) e 500 libras por ano.

Ela escolhe uma personagem para essa narrativa, apesar do uso da primeira pessoa, Mary Seton ou Carmichael. Mulher comum, culta, que possui as duas condições expostas para escrever. Ela não observa o mesmo ao seu redor. Na própria universidade é possível ver o contraste na forma com que mulheres e homens são tratados. Na biblioteca ela faz uma extensa pesquisa sobre a história da escrita feminina e constata que quase não existiam escritoras e que quando existiam, as mulheres não conseguiam retratar homens e existia uma amargura na escrita, pois as mulheres eram conscientes de que suas palavras seriam subjugadas. A autora reflete sobre a opinião dos escritores sobre as mulheres, alguns as desprezam, outros temem, outros idealizam. Expõe o paradoxo entre a condição privilegiada da mulher na ficção retratada pelos homens, sendo as personagens femininas da literatura normalmente fortes, guerreiras e heroínas. Ela cita diversos nomes conhecidos e termina a narrativa com sua própria voz, evitando medições, sugere que cada uma escreva o que tem vontade e não se importe se isso será relevante para a sociedade ou não.

Trazendo reflexões para a literatura, a história e a filosofia, para ela é evidente que seria impossível existir uma escritora com as mesmas honras de escritores por diversos motivos, a própria forma como as mulheres eram criadas, sem poder ter liberdade de pensamento, sem poder sair de casa, sem estudo, sem poder te ter suas ideias ouvidas, precisando focar no lar e na criação dos filhos de forma forçada e imposta, sem poder sequer entrar em uma biblioteca desacompanhada, sem dinheiro, sem um lugar para escrever e as poucas mulheres que se aventuravam, usavam de pseudônimos para fugir do estereótipo, o que tornava impossível medir a real quantidade de escritoras femininas e se houve nomes do gênero masculino conhecidos que na verdade fossem mulheres. As mulheres até o século XIX não poderiam receber premiações da área, assim como quase tudo lhe era negado. É tangente a oscilação de humor e certo ar depressivo da autora em seus trechos de diário. O livro termina com a cronologia da escritora, seus outros trabalhos, finalizando em 1941 quando ela deixa uma carta ao marido e se suicida em um lago.

Portanto, me arrisco de forma agressiva a dizer que quando ouço uma mulher dizendo que não precisa do feminismo, respondo mentalmente que se dependesse da postura dela, ela não poderia nem estar opinando e eu não poderia nem criticá-la abertamente caso tivesse vontade.

Sobre a legislação brasileira:

1932 – Voto feminino é reconhecido;

1950 – Flexibilização da exigência que condicionava o trabalho feminino à autorização marital;

1962 – Mulher casada deixa de ser considerada juridicamente incapaz;

1977 – A lei do divórcio entra em vigor;

1988 – Homens e mulheres possuem a mesma igualdade de direitos nas relações conjugais;

2001 – Passou a ser crime assédio sexual no ambiente de trabalho;

2002 – Fim da possibilidade de anulação de casamento caso o homem descobrisse que a mulher não fosse mais virgem;

2005 – o termo “mulher honesta” foi retirado da Legislação. Permitindo, assim, proteção à integridade física e a liberdade sexual de todas as mulheres;

2006 – Entra em vigor a Lei Maria da Penha;

2015 – Lei do Feminicídio entra para a lista de crimes hediondos.

E neste exato momento sei que ainda falta muito, que é preciso lutar, ainda não posso ser totalmente dona do meu corpo, das minhas decisões, da minha vida, das minhas roupas, dos meus horários, dos meus vícios, do meu sexo, tenho que ouvir bordões como “vai lavar uma louça” quando discordo da opinião de alguém.  Ainda tenho que assistir uma mulher que traiu o marido ser tratada como criminosa (mesmo adultério não sendo crime algum) e seu marido, que filmou e divulgou sua imagem, que a agrediu fisicamente e verbalmente, ser tratado como vítima por todos. Ver uma vítima de abuso ou estupro ser tratada como ré ou no mínimo invocadora da situação, apenas a esposa traída e a amante serem julgadas, a mulher ser a única responsável pela criação dos filhos e da casa quando algo dá errado, a mulher ser proibida de praticar um aborto e quando o faz de maneira ilegal ser execrada enquanto milhares de homens as deixam desamparadas e rejeitam a criança, esse abandono sendo tratado como corriqueiro. Uma mulher ser humilhada nas redes sociais porque desabafou sobre o cansaço psicológico e físico que sente ao cumprir “seu papel de mãe”. Uma mulher ser tratada como louca porque não concordou com um homem de mais de cinquenta anos dizendo que embebedava meninas menores de idade para facilitar o sexo e outra sendo ofendida por não ser dentro dos padrões de beleza e ser uma mulher comum, como a maioria, com seus quilinhos a mais e se amar e se aceitar assim, ser declarado, em pleno dia Internacional da Mulher, 08 de Março de 2016, que o fato dela ter “conseguido” um relacionamento com um homem bonito e de corpo sarado, seu grande prêmio de um reality show (Big Brother Brasil) em rede nacional na maior emissora do país.

Aqui termino meu pensamento, mas a minha luta, essa jamais cessará.